quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O que é TOC? (Especial Tartarugas Até Lá Embaixo)

Após seis anos sem nenhuma nova história do autor, “Tartarugas Até Lá Embaixo”, de John Green, chegou às livrarias no início de outubro, e, além de presentear os parceiros com um kit incrível, a Editora Intrínseca propôs uma semana especial sobre a trama, de seis a dez de novembro. A resenha foi publicada por aqui na segunda-feira (clique para ler), e a proposta desta quarta é falar de forma mais aprofundada sobre um dos temas abordados na obra. E dentre todos os brilhantes questionamentos levantados, escolhi um com o qual me identifiquei pessoalmente, e com o qual o autor também se identifica: o Transtorno Obsessivo-Compulsivo. A verdade é que todo mundo costuma falar que possui algum tipo de TOC, seja por não conseguir ver um objeto fora do lugar, por lavar as mãos constantemente para eliminar possíveis bactérias ou por reescrever cadernos de escola até que estejam “perfeitos”, por exemplo. Mas poucas são as pessoas que realmente possuem um transtorno obsessivo-compulsivo, uma doença psicológica que está longe de ser uma simples mania. 

O que é? 

De acordo com informações da GALILEU, que ouviu o psiquiatra Daniel Costa, pesquisador do Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (PROTOC), um grupo de pesquisa e tratamento associado ao Hospital das Clínicas da USP, acredita-se que cerca de 2% da população geral sofra deste mal, que obriga seus portadores a realizarem compulsões - caracterizadas por certos atos físicos ou mentais -, que têm como objetivo proporcionar alívio à ansiedade e ao incômodo causado por pensamentos intrusivos, comumente de conteúdo desagradável. Nas palavras de Costa, “o pensamento ruim vem, gera um incômodo, e então o portador sente a necessidade de realizar algum tipo de comportamento, uma compulsão, um ritual, para se livrar dele”. A maior incidência de diagnósticos ocorre entre as crianças de período escolar e os jovens adultos (entre 18 e 20 anos), e a disseminação de informações sobre a doença é extremamente importante para o tratamento. Em “Tartarugas Até Lá Embaixo”, a personagem Aza Holmes é portadora de TOC, e vive constantemente aprisionada em suas espirais de pensamentos. Além disso, a garota ainda possui uma compulsão em ferir o próprio dedo numa tentativa de certificar-se de que é real (dentre outras coisas). 

Obsessões, compulsões e evitações

Sempre que se fala em transtornos obsessivos-compulsivos, três termos devem ser levados em consideração, uma vez que são de extrema importância: obsessões, compulsões e evitações. As obsessões são os pensamentos, impulsos ou imagens indesejáveis e involuntários, que invadem a consciência e causam ansiedade e desconforto. Estes, por sua vez, obrigam o indivíduo a executar rituais ou compulsões, ou seja, atos físicos ou mentais realizados em resposta às obsessões e com a intenção de afastar ameaças, prevenir possíveis falhas ou aliviar o desconforto físico, como verificar diversas vezes se uma porta está trancada, repetir rezas, fazer contagens, dar pulos, redesenhar linhas e alinhar ou organizar constantemente objetos, por exemplo. Já as evitações dizem respeito às coisas, ações e lugares que os portadores de TOC procuram evitar, como banheiros públicos, hospitais ou objetos que outras pessoas tocam. As preocupações com contaminação ou sujeira, o nojo excessivo, temores constantes e as obsessões religiosas são outros casos típicos envolvidos nas fixações de quem possui a doença. 

Ainda de acordo com o psiquiatra Daniel Costa, em entrevista à GALILEU, “o TOC é uma das condições mais incapacitantes existentes”, contudo, apesar de sintomas obsessivos-compulsivos serem comumente disseminados na população, “só dá para falar em transtorno quando o comprometimento funcional ou sofrimento subjetivo pessoal é evidente”. Por isso, ele alerta para a importância da sociedade falar mais ampla e abertamente sobre o assunto, numa tentativa de incentivar possíveis portadores a procurarem ajuda. 

Tratamento

O TOC era considerado raro até pouco tempo, entretanto, tornou-se um transtorno mental bastante comum, acometendo um em cada quarenta indivíduos. Infelizmente, a condição tende a ser crônica, com a intensidade dos sintomas oscilando ao longo do tempo, e, se não tratado, pode acompanhar o portador ao longo de toda a vida. Após o diagnóstico, o tratamento envolve duas linhas de ação, sendo a medicamentosa e a psicoterapia, e a primeira é acompanhada exclusivamente por profissionais psiquiatras e comumente realizada com antidepressivos, remédios que também são utilizados no tratamento da ansiedade. Por fim, ainda não foi identificada uma causa aparente para o aparecimento da doença, como um gene específico, mas determinados pesquisadores observam que fatores como traumas e abusos podem desencadear sintomas - mas estes gatilhos ainda não foram comprovados cientificamente.

Particularmente, gostei muito de “Tartarugas Até Lá Embaixo”, principalmente pelo fato de ser uma leitura que me faz refletir sobre determinadas condições ao mesmo tempo em que abre os olhos de inúmeros leitores para um problema sério e que precisa ser discutido. Como disse na resenha, esta é uma narrativa tocante representada através da voz de Aza, que aborda assuntos como amizades duradouras, amor e reencontros inesperados, mas também um retrato absolutamente íntimo de uma jovem de dezesseis anos que vive uma luta constante com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Acredito que uma das mensagens intrínsecas da trama é que precisamos parar de romantizar condições que fazem pessoas sofrerem diariamente, e que a informação é um passo extremamente importante na busca pelo que somos realmente. Me lembrou “O Herói Improvável da Sala 13B” (clique para ler a resenha), que também aborda o TOC, e que, assim como este novo livro de John Green, é uma leitura mais do que recomendada. 


Sobre a Intrínseca
Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.



4 comentários:

  1. Eu ainda não Li tartarugas la embaixo, mas ja esta na minha meta de leitura, esse assunto o TOC é bem sério e as vezes eu vejo pessoas trata-lo como uma frescura do indivíduo. Se as pessoas soubessem como sofremos devido a "mania" que muitos chamam, talvez levassem mais em consideração o estado que a pessoa fica de não conseguir se livrar de tais pensamentos e atos, eu já sofri muito por causa disso, ja deixei de fazer várias coisas por conta disso. Hoje digamos que ta mais controlado, mas as crises vem e vão. E a gente vai levando a vida da melhor forma que podemos.
    Adorei o post.

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    1. O assunto é muito sério mesmo, e as pessoas banalizam demais as doenças mentais ou psicológicas. E o impacto é muitas vezes pior do que as doenças físicas né? Eu tenho uma versão controlada e bem moderada de TOC, com pequenas coisas. Mas em alguns anos é bem pior. Vem e vai também. Espero que goste da leitura! Um beijo <3

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  2. Amiga eu ainda estou finalizando a historia.
    Acho que esse foi o único livro do John Green que não devorei de uma vez só.
    Estou gostando bastante. Não tenho TOC, mas convivo com essa doença em casa.
    Minha sobrinha desde pequena apresenta comportamentos compulsivos e conseguimos identificar logo. E preciso te falar que com o tratamento ela mudou MUITO.

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    1. Eu li relativamente rápido se for contar que é um livro pequeno, mas também me demorei em algumas partes por ser o livro do autor que eu mais gostei até o momento. O tratamento é fundamental para melhorar a vida de quem tem a doença, né? E muita gente não faz por falta de - veja só - informação. E tem aquela coisa né, a sociedade banaliza coisas demais, e acaba virando uma espiral do silêncio. Um beijo!

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