Fleur de Lune

Resenha: The Heart of Betrayal + Relembrando The Kiss of Deception

terça-feira, 6 de dezembro de 2016


“Um ato rápido. Eu havia achado que isso seria tudo que se faria necessário. Uma faca nas entranhas. Torcê-la com firmeza, por garantia. Porém, enquanto Venda me engolia, enquanto as muralhas disformes e centenas de faces curiosas se aproximavam de mim, enquanto eu ouvia os ribombos de correntes e a ponte baixava atrás de mim, desligando-me do restante do mundo, eu sabia que meus passos precisavam ser certeiros. Impecáveis. Seriam necessários muitos atos, e não apenas um, todos os passos renegociados. Mentiras teriam que ser contadas. Confianças, conquistadas. Limites desagradáveis, cruzados. Tudo isso pacientemente entremeado, e paciência não era meu ponto forte”. 

Sinopse: “A série Crônicas de Amor e Ódio, iniciada com The Kiss of Deception, encantou os fãs de fantasia – e conquistou o coração dos brasileiros. A história de Lia inspirou muitos leitores a embarcarem em uma jornada extraordinária repleta de ação, romance e mistério, em um universo deslumbrante criado pela premiada escritora Mary E. Pearson. Em The Heart of Betrayal, o poder feminino continua sendo a força motriz capaz de mudar e fazer a diferença no mundo. Agora, acompanhamos a Primeira Filha da Casa Real de Morrighan aprisionada nas mãos do terrível Komizar, líder do reino bárbaro de Venda, contando apenas com Kaden e Rafe para mantê-la em segurança nessa terra estranha. Enquanto isso, as linhas de amor e ódio vão se definindo. Todos mentiram. Rafe, Kaden e Lia esconderam segredos, mas a bondade ainda habita o coração até dos personagens mais sombrios. E os vendanos, que ela sempre pensou serem selvagens, desconstroem os preconceitos da princesa. Lutando com sua alta educação, seu dom e a percepção sobre si mesma, Lia precisa fazer escolhas poderosas que vão afetar profundamente a sua família... e também o seu próprio destino”. 

Título: The Heart of Betrayal (Crônicas de Amor e Ódio: Volume II). 
Autora: Mary E. Pearson.
Páginas: 400 páginas.
Editora: DarkSide Books.
ISBN: 978-85-945-4011-9.


"Ele me consumiu de uma maneira diferente - a forma como seus olhos faziam tudo pular dentro de mim quando eu olhava para eles, sua risada, temperamento, a maneira como ele às vezes lutava com as palavras, a maneira como sua mandíbula se contraía quando estava zangado, a maneira que ele me ouviu, sua contenção incrível e resolução em face de probabilidades esmagadoras. Quando eu olhei para ele, eu vi o fazendeiro descontraído que ele poderia ter sido, mas eu também vi o soldado e príncipe que ele era. "

Algumas Impressões 

         Não sei se você já estava por aqui quando eu publiquei a resenha do primeiro volume da série “Crônicas de Amor e Ódio”, lançada no brasil pela DarkSide Books, mas tenho que te dizer: você precisa ler esta trama. “The Kiss of Deception”, da autora Mary E. Pearson, começa a contar a história da Primeira Filha da Casa Real do Reino de Morringhan, Lia, uma jovem de dezessete anos que definitivamente não se encaixa nos padrões determinados pela realeza e que não está disposta a seguir as tradições. O grande problema é que o reino de Morringhan é regido por inúmeras tradições seguidas à risca por todos os seus antepassados, e agora, o Rei ordenou que ela se case com o príncipe de um reino vizinho, Dalbreck. A ideia é que o casamento sele uma parceria entre eles contra um terceiro reino, Venda, mas Lia não está disposta a aceitar isso de bom grado. Contando com a ajuda de sua dama de companhia, Pauline, a princesa foge antes que a cerimônia tenha início, mas fugir das tradições não é uma tarefa fácil. Deixado para trás no dia do casamento, o Príncipe de Dalbreck se vê obrigado a partir atrás da garota, mas não é o único a seguir seus rastros. Um perigoso assassino contratado pelo Regente de Venda também quer descobrir o paradeiro da princesa – isso sem contar os soldados de seu próprio pai. Logo nas primeiras páginas, me encantei pelo enredo, narrado a maior parte do tempo pela própria Lia, mas também com passagens nas vozes do “Príncipe” e do “Assassino”. A autora criou uma fantasia muito bem construída, um mundo intricado e com profundidade semelhante a obras de J. R. R. Tolkien e George R. R. Martin, mas que mantém a originalidade através de uma escrita fluida, poética e repleta de referências. Cada detalhe desenvolvido pela autora é inserido com maestria dentro de uma trama complexa, com configurações políticas e sociais, além de inúmeras tradições e preceitos muito bem definidos. Não necessariamente descritiva, mas imersiva, a trama de KoD permite que o leitor consiga emergir no universo criado pela autora, como um expectador avido pelos próximos movimentos dos personagens que permeiam a história contada nas páginas.


"Desejei que o amor pudesse ser simples, que fosse sempre dado e devolvido na mesma medida, igualmente e ao mesmo tempo, que todos os planetas se alinhariam de maneira perfeita para dissipar todas as dúvidas, que era fácil de entender e nunca doloroso."
         
        E o mesmo sentimento continua com “The Heart of Betrayal”. Começando exatamente do ponto onde o desfecho tenso do primeiro volume nos deixou, a continuação da série “Crônicas de Amor e Ódio” amplia o leque de possibilidades aberto em KoD, trazendo novos personagens, o notável amadurecimento do trio principal, composto por Lia, Kaden e Rafe, e uma trama repleta de desdobramentos de tirar o fôlego, que não permite tirar os olhos das páginas até que a última seja concluída. Mais uma vez, formulei inúmeras teorias acerca do enredo, contudo, o uso de plot twist que tanto me surpreendeu em “The Kiss of Deception” não se repetiu em “The Heart of Betrayal”, pelo menos não com a mesma intensidade. Depois de ser capturada pelo assassino e seus companheiros, Lia é levada ao Reino de Venda, e terá que usar de todas as habilidades que possuí, além de sua coragem e determinação, para se manter viva – ou pelo menos tentar. Mais uma vez, a Primeira Filha da Casa Real de Morringhan terá de pagar o preço pelo amadurecimento, em sua busca constante pela justiça e a liberdade. Colocando a prova tudo que ela acreditava ser verdade e coisas que jamais questionou, sua estadia em Venda vai marcá-la de formas profundas, e os resultados das escolhas que fizer podem determinar se ela viverá para ver mais um dia ou se morrerá no mesmo instante. Lidando com o dissimulado Regente de Venda, o Komizar, ela vai descobrir que nem tudo é o que parece ser, e que, assim como o perigo, a esperança pode vir dos lugares mais inesperados – assim como o amor. Se você já leu o primeiro volume destas crônicas, por favor, não deixe de continuar esta leitura, porque, se KoD foi uma das minhas leituras favoritas do ano, HoB também estará presente na lista – e em uma das posições mais altas. Agora, se você ainda não começou e está prestes a embarcar neste romance, uma dica que dou é prestar muita atenção aos trechos que estão entre os capítulos, porque, acredite, você ainda vai se surpreender com a construção narrativa desta autora brilhante que é Mary E. Pearson.

Sobre a DarkSide

"Fazemos questão de publicar as histórias que amamos. Algumas viraram filmes, games ou lendas urbanas, mas todas reservam experiências únicas em suas páginas. Edições numeradas de colecionador. Seguindo o padrão quase psicopata de qualidade, cada livro Darkside tem que ser precioso no texto, na capa e no design. Então leia, releia, baixe, divulgue, colecione. No que depender de todos nós, Darksiders, o livro vai continuar mais vivo do que nunca".

Resenha: O Evangelho de Loki

quarta-feira, 30 de novembro de 2016


“Bem, essa aqui não é a Versão Autorizada. É a minha versão dos acontecimentos. E a primeira coisa que você tem que entender sobre essa breve narrativa é que não existe um começo de verdade. Aliás, nem um final; embora, é claro, haja várias versões de ambos. Múltiplos finais e começos, tecidos uns aos outros de tal maneira que ninguém consegue mais separá-los. Finais, começos, profecias, mitos, estórias, lendas e mentiras; tudo faz parte do mesmo tapete, principalmente as últimas, é claro – você sabia que eu diria isso, já que sou Pai e Mãe das Mentiras, mas nesse momento, são tão verdadeiras quanto qualquer coisa que seja vista como história”. 

Sinopse: “Loki é um metamorfo e a mais recente inclusão aos deuses nórdicos nos salões de Asgard. Ele está lá para atender à vontade de Odin e Thor, mas às vezes as coisas dão errado e suas ações são mal interpretadas. Loki definitivamente não merece o apelido de “trapaceiro” e irá explicar por que a quem quiser ler. Este é o Evangelho de Loki, e sua longa e curiosa versão da história está toda aqui: como ele arranjou um pedreiro para reconstruir Asgard; seu casamento com Singyn; o que o colar de ouro de Freia custou à humanidade e, é claro, o belo dia em que Thor se tornou uma linda noiva (ocasião da qual o Deus do Trovão nunca se gabou; por que será?). Enfim, tudo o que Loki quer é ajudar e ser útil – e, se alguém disser o contrário, não acredite!”.

Título: O Evangelho de Loki: A épica história do deus trapaceiro.
Autora: Joanne M. Harris.
Páginas: 336 páginas.
Editora: Bertrand Brasil.
ISBN: 978-85-286-2075-7.


“A maior parte do que conhecemos como história chegou até nós através de um único texto: “A Profecia do Oráculo”. É velho, escrito em uma língua antiga e, por muito tempo, foi basicamente o único conhecimento que tínhamos. Do início ao fim, o Oráculo e o Ancião já tinham tudo planejado entre eles, o que tornou tudo ainda mais irritante assim que descobrimos o que de fato significava que já era tarde demais. Mas chegaremos lá em breve”. 

Algumas Impressões 

          Se tem uma coisa a qual eu sempre gostei de estudar no colégio e sobre a qual eu adoro ler, é mitologia. Passei muito tempo focada em mitologia grega e romana, principalmente por conta das minhas leituras intermináveis das sagas de Percy Jackson, do Rick Riordan. Mas, através deste mesmo autor, passei a pesquisar uma outra mitologia, que acabou se tornando a mais querida: a nórdica. “O Evangelho de Loki”, da autora Joanne M. Harris, traz a história do deus trapaceiro, narrada em primeira pessoa e de uma forma totalmente irreverente e engraçada, afinal, é de Loki que estamos falando. A ideia é que, através de sua Lokabrenna, ele conte sua versão dos fatos, um ponto de vista singular sobre o começo da criação, os descendentes, a formação dos Reinos, o antes e o depois, o início, o meio e o fim de tudo. Não é segredo para ninguém que Loki sempre é rejeitado e/ou vítima dos outros deuses, e que, por estes motivos, acaba se vingando com suas trapaças narradas ao longo da história – ou ele já possui esta característica intrínseca, afinal, ele é um “deus demônio”. Segundo o próprio Loki, no começo de tudo Odin lhe fez uma proposta irrecusável, a promessa de transformá-lo em deus e irmão com apenas uma condição: que ele contestasse a ordem em Asgard. Contudo, enganado pelo Pai de Todos, Loki nunca foi aceito pelos demais deuses, e a história que se segue até o Ragnarök é permeada por vários altos e baixos para o deus trapaceiro. A estrutura narrativa é o principal destaque desta história de pouco mais de trezentas páginas, pois, através das palavras de Loki, nos sentimos em um bate papo com o Pai da Mentira. Além disso, não há muitos diálogos entre os personagens, e todas as descrições são feitas pelo próprio deus, nosso contador de histórias particular – de humor peculiar e muito sarcástico.


“E já que isso aqui não é história, e sim mistério – minha história -, vamos começar comigo, só para variar. Os demais já tiveram a chance de contar suas versões dos eventos. Essa é a minha. Vou chamá-la de Lokabrenna ou, em tradução livre, O Evangelho de Loki. Loki, esse sou eu. Loki, o Portador da Luz, o incompreendido, o esquivo, o belo e modesto herói dessa específica trama de mentiras”.

          Todo este background levantou duas perguntas enquanto eu seguia a leitura: Loki é mesmo um vilão por natureza ou seriam os deuses asgardianos culpados por sua condição vingativa e trapaceira? Os próprios deuses são os culpados pelo declínio de Asgard rumo ao Ragnarök? Loki sempre foi um personagem mitológico que me interessou, e por mais que os mitos e contos o retratem como um vilão irredutível, no fundo acredito que o preconceito dos deuses afeta mais suas ações do que sua própria natureza. O enredo começa com Loki apresentando os personagens que o leitor encontrará ao longo das páginas, em descrições cheias de gracinhas e muito divertidas. Ha, e ao contrário do que se pode pensar, suas descrições são muito reais, fazendo jus aos demais atores desta trama mitológica, tanto os deuses “Populares” quanto os demais que ele julga “não tão importantes assim”. Loki, deus demônio, agente do Caos, deus do fogo... estes são apenas alguns de seus títulos, e mais do que o suficiente para que ele sofra com a opressão dos demais asgardianos, mesmo sob a “proteção” de Odin. Desde o início sentindo que não era bem-vindo em Asgard, aos poucos Loki vai construindo sua personalidade, tornando-se o sinônimo do caos, das mentiras, da trapaça e das malandragens. Com isso, todas as desgraças e infelicidades dos deuses passam a recair sobre ele, como sua responsabilidade, afinal, eles o culpam de tudo – e por unanimidade. Com esta trama, seu objetivo é contar seus pensamentos acerca dos acontecimentos – da criação dos Mundos até o Ragnarök, o fim do mundo -, e mostrar sua (quase) inocência sobre tudo o que aconteceu. Em uma versão não autorizada, ou seja, que contraria a versão do Oráculo, ele nos apresenta o poder das histórias, das lendas e claro, de suas mentiras. Uma leitura mais do que recomendada, principalmente se você gosta de uma boa – e bem contada - história.




Sobre o Grupo Editorial Record

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Resenha: Unidos Somos Um + Resumão: Os Legados de Lorien

domingo, 27 de novembro de 2016


“Todo esse poder, e só um objetivo. A destruição de todos os mogadorianos na Terra. Principalmente Setrákus Ra, se é que ainda está vivo. Seis acha que pode tê-lo matado no México, mas não vou acreditar nisso até os mogs se renderem ou eu ver o corpo. Parte de mim quase deseja que ele ainda esteja vivo, para que eu mesmo possa acabar com o miserável. Final feliz? Está fora de cogitação. Eu fui idiota por um dia acreditar nisso”. 

Sinopse: “Tudo o que aconteceu nos trouxe até aqui. É nossa última chance de derrotar os mogadorianos. Salvaremos este planeta – ou morreremos tentando. Mas precisamos mobilizar todos os esforços... até o seu. Se queremos vencer essa guerra, temos que eliminar Setrákus Ra. E agora tenho o poder para fazer isso. Mas, para chegar até ele, vamos precisar do nosso próprio exército. Sabemos que você não queria nada disso. Nós também não queríamos. Lorien escolheu você, assim como nos escolheu. Os Legados foram concedidos para você ajudara salvar o mundo. Podemos treiná-lo para desenvolver suas novas habilidades. Podemos ensiná-lo a lutar. Mas a decisão de se juntar a nós cabe a você. Sua vida estará em perigo, e nem todos permanecerão vivos. Nem todos sobreviveram até agora. Destruíram meu lar, minha família, meus amigos e a pessoa que mais amo. Meu nome é John Smith. Eu sou o Número Quatro. Não tenho mais nada a perder – e esse foi o grande erro deles”. 

Título: Unidos Somos Um (Os Legados de Lorien, Livro 7).
Autor: Pittacus Lore.
Páginas: 352 páginas.
Editora: Intrínseca.
ISBN: 978-85-510-0080-9.


“Esta é a lista de tarefas: Entrar às escondidas em uma nave de guerra mogadoriana. Roubar todos os dispositivos de camuflagem que houver sem chamar a atenção dos mogs. Armar os governos do mundo para um grande contra-ataque. Enquanto isso, aprender todos os Legados que eu puder. Matar Setrákus Ra. Não necessariamente nessa ordem”. 

Algumas Impressões 

         Sabe quando você descobre algo que gosta muito e quer indicar para todo mundo? Esse é o meu sentimento com a série “Os Legados de Lorien”, escrita pelos autores Jobie Hughes e James Frey sob o pseudônimo “Pittacus Lore”. Desde o ano passado, estou completamente envolvida por esta narrativa de ficção científica, que tem como principais temáticas outros planetas, seres alienígenas, a ganância por recursos e, acima de tudo, a luta pela sobrevivência. Com um enredo envolvente, a história me conquistou quando assisti ao filme adaptado do primeiro livro, ainda em 2014, com sua trama dinâmica e que mescla ação, aventura e mistério, além de um pouco de romance e humor. A série, iniciada em “Eu Sou o Número Quatro”, é composta por sete livros físicos, e, um após o outro, os títulos trazem desdobramentos surpreendentes na trama, que cria novos e envolventes enigmas ao mesmo tempo em que soluciona outros. É como solucionar um grande quebra cabeça, que, uma vez montado, revela um enredo repleto de fatos que causam reviravoltas nada previsíveis ao mesmo tempo em que levam o leitor à uma profunda reflexão sobre o universo que o cerca e as coisas nas quais acredita – principalmente no que diz respeito a vida em outros planetas. A série se inicia contando a história do Número Quatro, John Smith, que é um dos nove Lorienos da Garde que escaparam da grande invasão mogadoriana ao planeta Lorien. Vivendo escondidos por quase dez anos na Terra, eles temem ser encontrados pelos Mogadorianos que os caçam, e precisam se reunir para enfrentar esta ameaça. A cada volume, suas histórias de vida e Legados vem à tona, e os Lorienos vivem em uma tentativa constante de definir com clareza a missão que o grupo tem de enfrentar. Ao mesmo tempo, também conhecemos os Mogadorianos, quais são afinal seus planos de dominação e/ou destruição (e quem está por trás deles) e o porquê de cobiçarem tanto a herança loriena, motivo pelo qual querem exterminar os membros restantes da Garde. Mas não são apenas os “alienígenas” que exercem papéis importantes dentro do enredo, uma vez que os seres humanos também se mostram determinantes para o desenrolar dos fatos, ou seja, com personagens bem construídos e uma trama complexa, mas extremamente concisa, os autores criaram uma obra irreverente e completa. Emocionante, instigante e - apesar de se tratar de uma obra de ficção -, realista, “Os Legados de Lorien” mostra-se capaz de conquistar diferentes tipos de leitor.


“Marina me abraça com força. Só então percebo como estou tenso, tão rígido que mal consigo relaxar. Mas isso não detém Marina. Solto o ar em um longo suspiro e fico surpreso ao me sentir estremecer. Está tudo tão caótico que não me dei conta de como precisava de consolo. Por um instante, descanso a cabeça em seu ombro, e sinto algo em mim se partir. Minha visão fica embaçada, e abraço Marina também, talvez com mais força do que deveria, embora ela não diga nada. Percebo que minhas bochechas estão molhadas. Solto Marina e limpo o rosto. – Meu Deus, John, eu sinto muito. Eu... – Marina para e olha para as próprias mãos. – Se eu não tivesse... Poderia ter feito alguma coisa. Poderia tê-la salvado”. 

AVISO: O parágrafo seguinte pode conter spoilers, mas que não comprometem a trama final (informações contidas na sinopse e orelha do livro). 

       O sétimo livro, “Unidos somos Um”, finalmente chegou por aqui no início desse mês, e, na minha opinião, é o desfecho ideal para esta série que tanto me conquistou. Com pouco mais de trezentas páginas, é um enredo tenso e cheio de ação, e, ao concluir a leitura, ao contrário do que pensei que aconteceria, não entrei naquela famosa bad pós livro (talvez só um pouquinho). Nele, a guerra entre os Lorienos da Garde e os terríveis Mogadorianos - que por muito tempo permaneceu em segredo -, torna-se um conflito global, que ameaça acabar como o planeta como o conhecemos e subjugar a raça humana. Como num jogo de medo e controle, o panorama não é animador, e humanos e Lorienos têm de se unir na tentativa de vencer esta guerra. Ao mesmo tempo uma maldição e uma benção, adolescentes por todo o mundo começam a desenvolver legados, o que é tanto um reforço na batalha futura quanto um risco, uma vez que os Mogadorianos se mostram muito interessados em usar os novos Gardes em suas terríveis experiências. Em meio a tudo isso, John Smith, o Número Quatro, já não é mais o mesmo. Depois de perder tudo o que mais amava neste conflito brutal e que parece não ter fim, ele não está disposto a permitir que mais pessoas sofram as consequências. Com um poder lendário recém descoberto, ele pode ser a maior arma da resistência contra os Mogadorianos. Mas, quais serão os sacrifícios necessários na tentativa de vencer esta batalha final? Será que ele abriria mão da própria vida para proteger seu novo planeta? Em uma conclusão emocionante e cheia de decisões difíceis, o destino da Garde nunca mais será o mesmo – e nem o nosso. Eu sinceramente gostaria que esta série tivesse mais notoriedade no Brasil, pois é muito interessante e bem construída, com um bom ritmo de leitura e personagens envolventes. E, por mais que eu queira saber cada vez mais sobre esta obra e ainda não esteja totalmente inclinada a abandonar a narrativa, estou satisfeita com este desfecho. Além disso, ainda temos ganchos para futuros lançamentos em e-book, e os próprios autores afirmaram que está história ainda não acabou. Até lá, “tudo o que aconteceu nos trouxe até aqui” – e estou muito feliz por isso.



Sobre a Intrínseca

Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.


Resenha: O Livro das Coisas Estranhas

sábado, 26 de novembro de 2016


“As mãos de Peter tinham parado com a tremedeira. Um pouco de perspectiva lhe tinha sido concedida. Não se tratava de Getsêmani nenhum: ele não estava indo para o Gólgota, estava embarcando em uma grande aventura. Fora escolhido entre milhares para atender à convocação missionária mais importante desde que os Apóstolos tinham se aventurado a conquistar Roma com o poder do amor, e ele ia dar o melhor de si”.

Sinopse: “Peter Leigh é um missionário que atendeu ao chamado mais importante de sua vida. Ex-alcoólatra e ex-drogado, encontrou sua redenção em Jesus e no amor por sua mulher, Bea. A missão é embarcar em uma nave espacial, cruzar galáxias e chegar em Oásis, um planeta distante e desconhecido, para evangelizar alienígenas que anseiam pelos ensinamentos da Bíblia, por ouvir a palavra de Deus. Essa busca será um desafio às crenças de Peter, a sua compreensão dos limites do corpo humano e, acima de tudo, ao seu amor por Bea, que ficou para trás na Terra. O livro das coisas estranhas, transcendendo o rótulo da ficção científica ou de qualquer outro gênero literário, é uma história original ricamente construída sobre aventura, a natureza da fé e dos laços que mantêm unidas duas pessoas que se amam mesmo estando separadas em mundos diferentes. Em Oásis, a promessa de um futuro para Peter, uma alegórica visão do Paraíso. Na Terra, nada vai tão bem, com suas catástrofes de toda ordem relatadas pelas frenéticas cartas da esposa. A Terra, seriamente ameaçada, pode chegar ao fim”. 

Título: O Livro das Coisas Estranhas.
Autor: Michel Faber.
Páginas: 528 páginas.
Editora: Rocco.
ISBN: 978-85-325-3039-4.

 

“Ele estava assustado demais para falar. Aquilo não era alucinação nenhuma. Era o que acontecia com o universo quando você não conseguia mais obrigá-lo à coerência. Cachos de átomos, raios de luz, aglutinando-se em formas efêmeras antes de se transmutar em outra coisa. Seu maior medo, ao deslizar para a escuridão, era nunca mais voltar a enxergar os seres humanos do mesmo jeito”.

Algumas Impressões 

         Dentre os meus gêneros literários favoritos, ficção (principalmente científica) e fantasia estão no topo da lista. As narrativas espaciais, que apresentam seres extraordinários e planetas desconhecidos, costumam me conquistar com surpreendente facilidade logo nas primeiras páginas, e quando a trama envolve questões conflitantes e que levam à reflexão (como ciência e religião, por exemplo), aí é que gosto mesmo. É interessante quando um autor faz com que os leitores reflitam acerca do mundo em que vivem e do que acreditam, uma vez que as coisas em geral são mais do que podemos enxergar. Por este motivo, assim que pus os olhos na sinopse de “O Livro das Coisas Estranhas”, romance do aclamado autor Michel Faber, eu soube que precisava lê-lo o quanto antes. Michel também é autor de títulos como “Sob a Pele” e “Pétala Escarlate”, e “O Livro das Coisas Estranhas” foi muito bem recebido, tanto pelo público quanto pela crítica assim que foi publicado, em 2014 - tanto que entrou para a lista dos 100 livros notáveis do ano do The New York Times. Na trama, que se passa em um futuro próximo, somos apresentados à Peter Leigh, um ex usuário de drogas que encontrou no Cristianismo a razão de sua existência, e que, desde que se converteu, dedica-se a conduzir outras pessoas a este caminho. Agora missionário, ele foi escolhido dentre muitos para uma missão tanto inusitada quanto especial: catequizar a civilização extraterrestre do planeta Oásis, que, aparentemente, está sedenta pelos ensinamentos do Evangelho. Mesmo repleto de dúvidas, Peter está eufórico com a tarefa cheia de novos desafios preparados para ele por Deus, principalmente com o fato de os próprios alienígenas, os Oasianos, terem solicitado que alguém fosse enviado para pregar os ensinamentos da Bíblia (a qual chamam de O Livro das Coisas Estranhas). Mas, ao mesmo tempo, ele se vê em conflito por ter de se separar da esposa, Bea, a qual foi considerada inadequada pela misteriosa organização responsável pela pequena colônia humana no planeta recém descoberto, a USIC, e não pôde acompanhá-lo na missão. Sozinho, ele é transportado para o planeta alienígena através de uma tecnologia conhecida como “Salto”, e, uma vez em Oasis, começa sua jornada evangelística em meio à peculiar raça nativa. Longe de sua mulher Bea, de seu gato Joshua e do mundo onde nasceu e cresceu, ele se vê testado de formas inimagináveis, de seu corpo à sua fé, em um enredo profundo que aborda temas como separação, amor e a natureza da fé religiosa. Longe da Terra, Peter irá descobrir que, maior do que o desafio de converter alienígenas, e enfrentar o abismo emocional que começa a se formar entre ele e a esposa por conta da distância excruciante que os separa. Além disso, por algum motivo não há quase nenhuma informação disponível sobre seu novo “rebanho”, e ele terá que enfrentar por conta própria os mistérios que permeiam o novo planeta.

 

“Peter atravessou a porta de correr, encontrando o ar de Oásis, e, diferentemente do que temia, não morreu instantaneamente, não foi sugado por um vórtex para o vácuo, nem fritou feito uma lasca de gordura na chapa. Em vez disso, ele se viu envolto em uma brisa cálida, úmida, um redemoinho balsâmico que parecia vapor, exceto por não incomodar sua garganta. Saiu andando no escuro, nada a iluminar seu caminho além de uns postes distantes”. 

      Contudo, será que é necessário temer o desconhecido uma vez que os próprios Oasianos ansiavam pelos ensinamentos de Jesus? Há realmente uma complexa e intrincada trama além de seu conhecimento se desenrolando ali? Uma vez adaptado ao clima idílico de Oasis, o pastor começa a entender aos poucos a relação estabelecida entre a equipe da base da USIC e os nativos e também como funciona a comunidade Oasiana, ao mesmo tempo em que se comunica com Bea através de uma tecnologia de comunicação interplanetária chamada “Tubo”. Através das cartas cada vez mais urgentes e até mesmo desesperadas da esposa, ele descobre que a Terra está sofrendo com as mais variadas catástrofes “na terra e nos mares”, o que, de acordo com a Bíblia, anuncia a chegada do apocalipse cristão e a segunda volta de Cristo. Será que a Terra como a conhecemos está mesmo chegando ao fim? Extremamente atormentado pelo tom cada vez mais caótico das cartas da esposa e imerso nas ocupações de sua nova vida, Peter chega ao limite, física e emocionalmente. Há algo que ele possa fazer, a incontáveis quilômetros de distância? Mesmo classificado como uma narrativa de ficção científica, ao fazer a leitura percebi que o livro pode ser abordado principalmente como sendo um romance, uma vez que boa parte da trama gira em torno do relacionamento de Peter e Bea (e também do relacionamento de Peter com Deus). Entretanto, vários dos elementos presentes categorizam-no como ficção, mesmo que o autor não tenha desenvolvido tanto a parte futurística e de exploração interplanetária. É uma aventura espacial com um mundo ricamente desenvolvido, e Oasis e os Oasianos despertam o interesse e a vontade de conhecê-los cada vez mais. Mas a verdade é que tudo isso figura como background para o drama pessoal do casal e a mensagem evangelística intrínseca nesta obra de Michel Faber. É um livro interessante e bem construído, curioso e com um bom ritmo de leitura. Mas ao mesmo tempo em que me cativou e fez com que uma intensa reflexão sobre minhas próprias crenças fosse desencadeada, é uma obra difícil de se indicar. Se você gosta de tramas espaciais mais “clássicas” ou se por algum motivo não simpatiza com as Escrituras (citadas literalmente em diversas passagens), pode encontrar barreiras na leitura de “O Livro das Coisas Estranhas”. Mas se, assim como eu, gosta de uma boa e inusitada história fora dos próprios pré-conceitos, há uma grande chance deste livro te conquistar.



Sobre a Editora Rocco
Há mais de três décadas demonstrando sensibilidade para detectar as tendências do mercado, ousadia na difusão de novas ideias e agilidade de produção, a Rocco se orgulha por ser uma editora sólida e independente, capaz de se reinventar a cada dia para atender aos anseios do público brasileiro. Seus selos são: Rocco, Rocco Jovens Leitores, Rocco Digital, Bicicleta Amarela, Fábrica 231, Fantástica Rocco, Anfiteatro e Rocco Pequenos Leitores.