Fleur de Lune

Dá o Play: Halsey

segunda-feira, 16 de maio de 2016


      O assunto da postagem é completamente outro, mas antes tenho que falar sobre a bagunça nada periódica que está a frequência de postagens aqui do Fleur. Acontece que estou nas semanas finais para a entrega do trabalho de conclusão de curso, e como também estou trabalhando o tempo anda bem curto. Digamos que estou surtando, e que só vou conseguir ser normal (na medida do possível) de novo quando esta monografia finalmente for concluída, no fim deste mês. Mas enfim, desde que inaugurei esta categoria de música aqui no blog, venho falando sobre as descobertas maravilhosas que faço através das playlists aleatórias do youtube, e também de trilhas sonoras de filmes e séries. E a minha mais recente descoberta foi em março deste ano, quando, através das indicações do migo youtube, conheci a menina de cabelos coloridos e voz profunda que vêm fazendo cada vez mais sucesso desde 2014, quando lançou seu primeiro EP: Halsey. O EP “Room 93” tinha cinco músicas, sendo “Is There Somewhere”, “Ghost”, “Empty Gold”, “Trouble” e “Hurricane”, com um refrão poderoso sobre ser dona de si.


        Natural de New Jersey, Ashley Frangipane tem apenas 20 anos (a minha idade), e, ainda no início da carreira, em 2012, quando postava covers no youtube, adotou o nome artístico Halsey, tanto por ser um anagrama de seu nome real quanto por ser uma rua do Brooklyn, bairro onde ela passou a maior parte da adolescência e onde, segundo a cantora, começou a desenvolver sua personalidade musical. Dois anos depois, após começar a disponibilizar suas canções autorais no SoundCloud, a garota passou a fazer contatos reais com o mercado da música, e, após receber propostas de várias gravadoras, ela fechou contrato com a Astralwerks, através da qual, em outubro de 2014, lançou o EP “Room 93”. Seu primeiro álbum, “Badlands”, saiu em 2015, e, enquanto trabalhava na produção, a cantora ganhou espaço através da divulgação dos singles de “Room 93” (principalmente “Hurricane”) e também de sua participação como atração de abertura em shows de bandas já consagradas, como Imagine Dragons.


       Fugindo dos padrões da música comercial, as canções de Halsey têm uma sonoridade original e totalmente própria, com composições peculiares e que chamam a atenção, variando da melancolia indie às batidas eletrônicas, apesar de, atualmente, serem consideradas parte do hall da música pop. Dona de um timbre de voz incrível, um visual marcante e totalmente livre de padrões, a cantora também têm chamado a atenção pela forma como expressa sua opinião abertamente sobre os mais diversos assuntos, como representatividade, sexo, relacionamento, batalhas internas, entre outros, de uma forma irreverente e de uma perspectiva totalmente diferente da comumente expressa por outras cantoras, fato que influencia diretamente suas composições. Nas letras de Halsey, a mulher não é um objeto usado apenas para agradar e satisfazer as necessidades do parceiro, mas um ser humano que faz o que gosta e porque gosta, com poder sobre o próprio corpo, por exemplo.


"Eu tô cansada de ouvir "se cubra", "não fale sobre seu corpo" como se nascer mulher fosse uma vida de vergonha e culpa por causa do seu gênero".


           Representatividade inclusive é um tema recorrente tratado pela cantora, seja em entrevistas ou através de suas redes sociais. Filha de pai afro-americano e mãe ítalo-americana, ela frequentemente aproveita seu espaço na mídia para levantar a questão da segregação racial no continente norte-americano, e reafirmar com orgulho sua condição miscigenada. Outro tema muito comentado pela cantora é a questão da sexualidade, uma vez que ela se declara bissexual. Um exemplo interessante é a música "Ghost", que possui duas versões de clipe: uma em que a cantora tem um relacionamento com um homem (versão do EP "Room 93"), e a mais recente, onde ela se relaciona com uma mulher. Em uma sociedade onde o preconceito com a sexualidade do outro é tão disseminado, ter alguém como Halsey levantando esta bandeira é, no mínimo, inspirador, e, também, um sinal de empoderamento.




         O álbum de estreia da cantora, “Badlands” é um trabalho considerado conceitual, por conta da cidade homônima inventada pela própria cantora. A história construída durante as dezesseis faixas do CD (na versão Deluxe. A comum possui quatorze faixas), se passa em uma sociedade pós-apocalíptica, e, segundo a cantora, à medida que o trabalho foi sendo finalizado, era possível perceber que o álbum funcionava como uma metáfora para o que ela estava vivendo enquanto escrevia. Simplesmente maravilhoso, “Badlands” consegue transportar o ouvinte para o peculiar mundo de Halsey, onde ele faz um tour pelas mais variadas experiências pelas quais ela passou, desde relacionamentos amorosos repletos de decepções até as crises existenciais, mas também por momentos felizes vividos por ela. E para quem ainda não conhece o debut da cantora, é possível ouvir todo o álbum de estreia da cantora em seu canal VEVO no youtube (clique aqui para acessar). E vou te falar, vale muito a pena! E aí, já conhecia a Halsey? Tem alguma música, cantor ou banda para indicar? Conta aí nos comentários! 

Sessão Pipoca: Mogli - O Menino Lobo

quarta-feira, 11 de maio de 2016


        Baseado na série literária de Rudyard Kipling, Mogli: O Menino Lobo, conta a história do jovem Mogli (Neel Sethi), um garotinho de origem indiana que, após a morte de seu pai, é criado na selva por uma alcateia de lobos, contando com a companhia de seus dois amigos, o urso Baloo e a pantera negra Bagheera. Após ser ameaçado pelo temido tigre Shere Khan, que deseja vê-lo morto por conta de experiências anteriores com caçadores, o “filhote de homem” sente que não é mais bem vindo no único lar que conhece: a selva. Forçado a abandonar sua casa, o menino embarca em uma jornada de autoconhecimento cheia de aventuras, onde, em meio a criaturas boas e não tão bondosas assim, como a cobra Kaa, com sua voz hipnotizante, e o Rei Loiue, o nobre rei dos macacos que tenta convencer Mogli a contar um dos maiores segredos dos homens: a mortal flor vermelha.

Título: Mogli – O Menino Lobo.
Duração: 1 hora e 46 minutos. 
Direção: Jon Favreau.
Gênero: Aventura, Família, Fantasia. 
Lançamento: 14 de abril de 2016. 


Algumas Impressões

           Eu estava absolutamente ansiosa para assistir a este filme, e me sinto até envergonhada pelo tempo que demorei para fazer esta resenha tendo em vista que fui ao cinema assim que ele foi lançado. Mas, como já é de conhecimento geral da nação, estou sendo assolada pelo trabalho de conclusão de curso, estou em um relacionamento sério com a monografia... Enfim, preciso terminar este trabalho até o dia trinta deste mês (e pode ser que eu esteja surtando por isso), e, além do meu novo emprego, o TCC ocupa quase todo o meu tempo. Bom, desde que a Disney anunciou que começaria a refilmagem em live action de Mogli comecei a ficar ansiosa e até mesmo com um pouco de receio, uma vez que a animação é muito boa e marcou minha infância. Mas, levando em conta o trabalho maravilhoso que os produtores fizeram com Cinderela (clique para ler a resenha), o filme, lançado em abril deste ano não poderia ter sido melhor, o que acabou com todas as minhas preocupações. Com efeitos especiais surpreendentes, e a atuação impecável do ator Neel Sethi no papel de Mogli, o longa evidencia o cuidado dos produtores até nos mínimos detalhes, conferindo aos diversos animais e à selva em si uma realidade incrível, desde os movimentos mais sutis aos olhares mais expressivos.


          Com um bom ritmo e cenas bem estruturadas de ação e aventura, o filme conquista mesmo com um roteiro simples, sem muitos mistérios ou reviravoltas. Como muitos dos filmes já lançados ou que ainda vão chegar aos cinemas este ano, Mogli: O Menino Lobo, trás um aspecto saudosista, com passagens inesquecíveis como a canção “Necessário, somente o necessário”. É impossível não cantar junto. Mensagens intrínsecas, como a importância da união, do lar e da família se fazem presentes, assim como a noção de bem e mal. Apesar de não trazer um conteúdo tão questionador quanto algumas das últimas produções da Disney, como Zootopia (clique para ler a resenha), saí do cinema absolutamente envolvida pela história que conheço tão bem, mas que, nesta nova roupagem – se posso dizer assim – me mostrou elementos que não pude perceber antes. Ha, e já estou esperando sair em DVD para colocar ao lado da animação na estante!


Resenha: Um Passado Sombrio

domingo, 8 de maio de 2016


“As grandes revelações da minha vida adulta começaram com os gritos de uma alma perdida na lanchonete perto de casa [...] Inesperadamente, com uma indignação maníaca que pareceu vir do nada, o homem no início da fila começou a proferir a palavra turbulento. Ele começou num nível um pouco mais alto que o de uma conversa comum. Quando encontrou um ritmo, o volume estava duas vezes maior, ficando cada vez mais alto à medida que continuava. Se você tivesse que se fixar numa palavra para gritar várias vezes em público, não escolheria algo menos esquisito?”

Sinopse: O ano é 1966, e Spencer Mallon, um carismático e astuto guru de passagem por um campus universitário do Meio-Oeste norte-americano, tem grandes planos em mente. Reunindo um restrito grupo de discípulos, entre estudantes de colegial e universitários de fraternidade, ele arquiteta um ritual secreto que acaba em horror e mistério: os resultados são um corpo horrivelmente dilacerado, um garoto desaparecido e as almas abaladas de todos os envolvidos. Quarenta anos depois, Lee Harwell, escritor de relativo sucesso e amigo de infância da maioria dos garotos que participaram do ritual – além de marido de uma das garotas envolvidas -, sai em busca de informações sobre essa noite aterrorizante, com um projeto de livro em mente. Porém, para consegui-las, precisará não apenas reencontrar antigos colegas com quem perdeu o contato há décadas, mas também incitá-los a reexaminarem os eventos inomináveis que os têm assombrado desde então. E, à medida que eles se dispuserem a enfrentar a escuridão do passado, cada um dos velhos amigos se verá cara a cara com o mal desencadeado décadas antes. 

Título: Um Passado Sombrio. 
Autor: Peter Straub.
Páginas: 392 páginas.
Editora: Bertrand Brasil.
ISBN: 978-85-286-2048-1.


“Das cinco pessoas do nosso pequeno bando da escola Madison West, três tinham sérios problemas com os pais. Na época, eu achei que isso explicava muito da atração que tinham por Mallon; ainda acho. Pelo que meus amigos me contaram, Spencer Mallon parecia talhado para exercer uma atração hipnótica sobre um grupo de garotos aventureiros de dezessete e dezoito anos que, de um modo ou de outro, tinham sido magoados por seus pais problemáticos. Ele, com certeza, falava ao coração dos meus amigos; ele os fisgou. Ele os seduziu – é a isso que tudo se reduzia. E porque tinham sido hipnotizados e seduzidos, eles seguiram esse personagem obscuro até o campo do departamento de agronomia da universidade e cooperaram alegremente com o que quer que seja que acabou sendo tão destrutivo para todos”.

Algumas Impressões 

     Suspense, terror, mistérios. A história deste livro é permeada por grandes segredos, e principalmente por muitas testemunhas de um mesmo fato sombrio e macabro que permaneceu oculto por quarenta anos. Em consequência do número de personagens envolvidos, a narrativa se torna passível de múltiplas interpretações e realidades, seguindo um padrão não linear. Neste tipo de enredo, é difícil saber em quem acreditar, e se realmente alguém merece o crédito, pois é complicado comprovar a veracidade das versões de cada personagem. Além disso, o desfecho é mutável, e se baseia, em suma, nas escolhas feitas por cada leitor, seja por ter escolhido seguir determinado personagem ou acreditar em determinada versão dos fatos apresentada ao longo da trama. A história gira em torno de acontecimentos de meados dos anos sessenta, quando um suposto guru chega a um campus universitário, conquistando os estudantes com suas teorias sobre o poder secreto da natureza e rituais com resultados inimagináveis, capazes de mudar o mundo e a vida daqueles que o seguissem. Carismático, ele consegue reunir um pequeno grupo para um ritual que acaba dando muito errado, com consequências catastróficas para todos os envolvidos: uma pessoa é gravemente mutilada, um garoto simplesmente desaparece e nunca mais é visto, e os demais sobreviventes sofrem manifestações diversas, como um que é acometido por uma cegueira repentina e outro que perde a sanidade, ficando louco de uma forma irreversível. Tudo na tentativa de esquecerem suas visões. Deixando uma trilha de horror e vidas destruídas, o guru foge.

       Quarenta anos depois, o escritor de romances Lee Harwell, decide desenterrar estes segredos, com a ideia de escrever um livro e descobrir o que realmente aconteceu na fatídica noite. Ele inclusive é marido de uma das vítimas do ritual, e, a partir daí, embarca em uma trilha sem retorno, que o levará para os lados mais obscuros da alma humana. Logo, Lee percebe que o sobrenatural não é algo tão distante ou irreal, mas que, ao contrário do que muitos pensam, está a apenas um piscar de olhos. Particularmente, gostei bastante da leitura, principalmente por conta do gênero e da forma como os acontecimentos foram se desenrolando, montando o grande mosaico de histórias que compõe o livro. Entretanto, o enredo deixa lacunas, principalmente se você não conhece outras obras do autor que compartilham o mesmo cenário ou servem como extensão deste título, uma vez que são feitas várias referências. Mas não deixo de indicá-lo, e com um adendo: se você gosta de Gillian Flynn, vai adorar Peter Straub. 


Resenha: Hyde

sexta-feira, 6 de maio de 2016


"Henry Jekyll está morto. Balbucio estas palavras e então me mantenho alerta, como se deixasse cair uma pedra em um poço e aguardasse o baque e o respingo de água... Contudo, dentro de minha cabeça resta o silêncio. Ao meu redor, um coro de sons de comemoração preenche o vazio: o estalido do carvão no fogão, o ranger do gabinete de madeira, como o de uma nau antiga, e, para além das janelas, um ruído baixo e agudo, que lembra filhotes de passarinho. Sento-me na cadeira de Jekyll, ao lado destas três janelas de caixilhos incrustados, com seu sobretudo embolorado jogado em meus ombros como um casaco de viagem. Fim de minha jornada. A transformação nunca foi tão suave" (Hyde). 

        Sinopse: O que acontece quando o vilão se torna o herói? Impedido de sair do gabinete do Dr. Jekyll, Mr. Hyde conta as horas até ser capturado. No entanto, como um último ato ele tem a chance de contar sua breve e fascinante história. Trazido à vida após passar mais de trinta anos adormecido no inconsciente do Dr. Jekyll, Hyde não sabe quando ou por quanto tempo terá o controle do corpo que divide com o médico. Quando dormente, ele observa a vida do doutor de uma perspectiva distante, mas consciente. Porém, conforme o experimento se desenrola, Hyde passa a ter suas próprias experiências, algo próximo à liberdade. Mas a existência mútua é ameaçada. Há um perseguidor misterioso à espreita. Hyde está sendo provocado, e há uma cilada sendo orquestrada. E, quando algumas garotas desaparecem e uma pessoa é assassinada, na bruma da consciência compartilhada, será que Hyde pode ter certeza de que não é o culpado dos crimes? 

Título: Hyde.
Autor: Daniel Levine.
Páginas: 434 páginas.
Editora: Grupo Editorial Record.
ISBN: 978-85-01-10689-6.


"O homem não é realmente apenas um, mas dois. Eu digo dois, porque o estado de meu próprio conhecimento não vai além desse ponto. Outros me sucederão, outros irão me superar neste mesmo tema; e me arrisco a supor que o homem será conhecido no fim como um mero abrigo de entidades múltiplas, incongruentes e independentes" (O Médico e o Monstro). 

Algumas Impressões 

      Datado de 1885, o conto gótico de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro (ou O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde), trás a história – considerada um clássico da literatura - do Doutor Henry Jekyll e seu grande amigo Gabriel Utterson, com foco principal na forma como o primeiro lida com seu alter ego, Edward Hyde. O autor Daniel Levine assumiu uma missão arriscada e um tanto ousada ao retratar a obra, dando vida a uma releitura focada em Hyde, que dá nome ao título publicado em março deste ano pela Record, e que também conta com a versão integral do conto original de Stevenson. Iniciei a leitura pelo conto clássico, uma vez que fazia tempo desde a primeira vez que o li, e, antes de qualquer coisa, tenho que dizer que foi uma sacada genial da editora publicar os livros juntos, uma vez que, sendo a história de Levine uma releitura, esta é cheia de referências do clássico, como memórias e situações passadas pelos personagens. Aliás, as primeiras páginas são quase que por inteiro referências ao conto clássico, com as passagens narradas em primeira pessoa pelo próprio Hyde. A estratégia é eficiente no que diz respeito a ambientar o leitor, e estabelecer uma conexão com a história original, e, através do enredo criado por Daniel Levine, é proporcionada ao leitor a oportunidade de preencher lacunas abertas desde 1885.


         Entretanto, ao longo das páginas, a narrativa se torna um tanto estagnada, com o sociopata Hyde (isto no clássico de Stevenson), sendo retratado como um personagem letárgico e um tanto apático até nas cenas mais complexas. Por mais de uma vez senti como se estivesse faltando alguma coisa, principalmente ação e iniciativa do personagem principal. Veja bem, no conto original Hyde é retratado como um assassino frio e cruel, a essência de sua criação é esta. Já na releitura de Levine, ele é pintado como um (pseudo) herói, que, apesar de não estar no controle nos últimos 36 anos, observa o cotidiano do Doutor de uma perspectiva distante, como se do subconsciente, por mais que não possa se revelar. Este Hyde se defronta com situações existenciais e moralistas a maior parte do tempo, muito diferente do monstro violento e grotesco do livro escrito por Stevenson. Não que a obra tenha me desagradado de todo, mas para quem estava esperando a crueldade de Hyde e sua personalidade conflitante de vilão, o livro de Daniel Levine não satisfaz estes desejos. Não desenvolvi empatia com o personagem em sua nova roupagem, e a leitura tornou-se mais lenta do que de hábito. Para mim, ele é um livro capaz de gerar sentimentos diversos e opostos, uma vez que, para citar uma expressão popular, “ou você o ama, ou o odeia”.