domingo, 23 de abril de 2017

Resenha: Mitologia Nórdica


“É tão difícil escolher um universo favorito de lendas e mitos quanto se decidir por um prato preferido (em algumas noites queremos comida tailandesa, em outras, sushi, e às vezes só conseguimos pensar na comida caseira e simples da nossa infância). Mas, se eu tivesse que escolher um, provavelmente seria o dos mitos nórdicos”.

Sinopse: “Os grandes mitos escandinavos recontados em um arco que vai do início dos tempos até o apocalipse mítico do Ragnarök. Neil Gaiman empresta suas palavras aos contos, mas se mantém fiel à mais tradicional leitura da mitologia nórdica, que guarda em verso e prosa as lendas de Odin, o mais poderoso dos deuses, sábio, audacioso e sagar; de Thor, seu filho, o mais forte, porém o menos inteligente dos deuses; e de Loki, filho de gigantes, irmão de Odin por juramento, trapaceiro e extraordinário manipulador. Em quinze histórias fascinantes, Gaiman nos apresenta deuses competitivos que traem e são traídos e cujas emoções ditam grande parte de suas ações – traços marcantes de uma mitologia que ganha, neste livro, um novo e precioso registro”. 

Título: Mitologia Nórdica. 
Autor: Neil Gaiman. 
Páginas: 288 páginas.
Editora: Intrínseca.
ISBN: 978-85-510-0128-8.


“Enquanto recontava esses mitos, tentei me imaginar muito tempo atrás, nas terras onde essas histórias foram contadas pela primeira vez, durante as longas noites de inverno, quem sabe sob o brilho da aurora, ou então sentado ao ar livre durante a madrugada, ainda acordado sob a luz interminável no auge do verão, cercado por pessoas que queriam saber o que mais Thor fez, o que era o arco-íris, como levar a própria vida e de onde vem a poesia ruim”.

Algumas Impressões 

       Sempre gostei de mitologia. Primeiro por serem relatos que frequentemente traziam criaturas e situações fantásticas e aparentemente impossíveis que haviam se passado há anos e anos atrás e que de alguma forma ainda influenciavam os tempos atuais. Segundo por se tratarem de uma fantasia bem elaborada, e que para quem as contava e passava religiosamente de geração em geração, significava a explicação de tudo aquilo que não podia ser explicado de uma forma aparentemente “lógica” ou “racional”. Histórias de diferentes povos que acabaram por apresentar muitas semelhanças baseadas em lutas e conquistas, crenças regadas à temor e fé. Os diversos deuses patronos dos mais diferentes tipos de coisas... os deuses dos mares, dos céus, das colheitas e do sol. Tantos seres, membros de uma árvore genealógica muito confusa e de narrativas heroicas, assustadoras, pouco românticas (vamos combinar que a maior parte dos romances acaba em tragédia – Apolo, estou olhando para você) e cheias de ação, coragem e aventura. Apesar de não ter uma mitologia favorita dentre as que estudo e conheço - grega, romana, hindu, egípcia e nórdica -, me identifico com o mestre Neil Gaiman quando conta como começou seu interesse pela mitologia nórdica, dos deuses de Asgard e da história cheia de particularidades que envolve uma “árvore da vida”, a Yggdrasill, e os nove mundos, afinal, meu primeiro contato também se deu através dos quadrinhos da Marvel Comics, com o Poderoso Thor, o deus do trovão, trazido às páginas por Stan Lee e Jack Kirby. A partir daí os muitos mitos passaram a me interessar, mas por serem relativamente mais violentos e um pouco mais confusos e intrincados (afinal, estamos falando de mitos), deixei a mitologia nórdica de lado por muitos anos, até que o autor Rick Riordan reacendeu meu interesse através da série “Magnus Chase e os Deuses de Asgard”, também publicada pela editora Intrínseca. E agora, através de uma edição impecável em todas as suas quase trezentas páginas, Gaiman empresta suas palavras para narrar a história dos deuses nórdicos, do início de tudo ao fatídico Ragnarök, o destino final dos deuses e dos nove mundos “como os conhecemos”. Em “Mitologia Nórdica”, um título dedicado tanto aos amantes de mitologia quanto a quem ainda deseja adentrar este mundo complexo e interessante, o autor nos apresenta os “personagens” e seleciona quinze mitos, capazes de despertar a curiosidade do leitor e infringi-lo diferentes sentimentos, da surpresa ao divertimento – e à confusão, afinal, Loki está envolvido.


“Essa é a graça dos mitos. A diversão vem de contá-los você mesmo, algo que o encorajo veementemente a fazer, leitor. Leia as histórias deste livro, depois se aproprie delas e, em uma noite gelada de inverno – ou em uma noite de verão em que parece que o sol não vai se pôr nunca -, conte a seus amigos o que aconteceu quando o martelo de Thor foi roubado, ou como Odin obteve o hidromel da poesia para os deuses...”. 

     Dentre as tramas, é possível descobrir como Thor ganhou seu precioso e emblemático martelo, como os nove mundos se formaram, como Loki teve filhos, digamos, “inusitados”, como um cavalo de oito patas, e como surgiu a famosa bebida entre os deuses, o Hidromel. Também é possível saber mais sobre as aventuras de Thor nas terras dos gigantes e suas viagens para proteger Asgard e Midgard (que é a Terra), histórias sobre deuses e deusas que não vivem tanto sob os holofotes como o trio Odin, Loki e Thor e sobre o fim do mundo segundo os nórdicos e o que aconteceu (ou será que ainda vai acontecer?). De todos os mitos recontados nestas páginas por Gaiman, devo dizer que todos me conquistaram, mas se fosse necessário escolher favoritos, o princípio e o fim me chamaram mais a atenção. É extremamente cativante ler sobre como outras culturas acreditavam ter se formado o mundo, a forma como viam e temiam os ditos deuses e como defendiam a existência de criaturas consideradas apenas lendas e fantasia – como os elfos e os anões, por exemplo. E é igualmente interessante assistir ao fim de tudo, como num ciclo que foi vivido e que tem o fim determinado desde o início – afinal, as Nornas estão aí para tecer e eventualmente brincar com nossos destinos. Nem preciso dizer que, em se tratando de mitologia e dos escritos do mestre Neil Gaiman, é um livro mais do que recomendado, não é mesmo?! Independentemente do que já tenha ouvido falar sobre o assunto, acredito que a narrativa contida nestas páginas tem o poder de chamar a sua atenção de uma forma como nenhuma outra é capaz, com uma abordagem simples, porém assertiva, de contos que, de uma forma ou de outra, sempre farão parte de nossa própria história – mesmo que não saibamos disso. A premissa dos mitos é que estes sejam repassados, contados nos dias mais frios ao redor da fogueira ou nas longas noites de verão. Por isso, endossando o conselho de Gaiman, sugiro que, ao fazer a leitura deste livro, você se aproprie do que ele contém, e passe para frente o que quer que ele esteja contando. Afinal, por mais que a história se faça com momentos, de nada adianta se estes não são traduzidos em palavras.


Sobre a Intrínseca
Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.


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