sábado, 4 de fevereiro de 2017

Resenha: Jogos Vorazes


“Quando acordo o outro lado da cama está frio. Meus dedos se esticam à procura do calor de Prim, mas só encontram a cobertura áspera do colchão. Ela deve ter tido sonhos ruins e pulou para a cama de nossa mãe. É claro que foi isso. Hoje é o dia da colheita”.

Sinopse: “Katniss escuta os tiros de canhão enquanto raspa o sangue do garoto do Distrito 9. Na abertura dos Jogos Vorazes, a organização não recolhe os corpos dos combatentes caídos e dá tiros de canhão até o final. Cada tiro, um morto. Onze tiros no primeiro dia. Treze jovens restaram, entre eles, Katniss. Para quem os tiros de canhão serão no dia seguinte?... Após o fim da América do Norte, uma nova nação chamada Panem surge. Formada por doze distritos, é comandada com mão de ferro pela Capital. Uma das formas com que demonstra seu poder sobre o resto do carente país é com os Jogos Vorazes, uma competição anual transmitida ao vivo pela televisão, em que um garoto e uma garota de doze a dezoito anos de cada distrito são selecionados e obrigados a lutar até a morte! Para evitar que sua irmã seja a mais nova vítima do programa, Katniss se oferece para participar em seu lugar. Vinda do empobrecido Distrito 12, ela sabe como sobreviver em um ambiente hostil. Peeta, um garoto que ajudou sua família no passado, também foi selecionado. Caso vença, terá fama e fortuna. Se perder, morre. Mas para ganhar a competição, será preciso muito mais do que habilidade. Até onde Katniss estará disposta a ir para ser vitoriosa nos Jogos Vorazes? ”.

Título: Jogos Vorazes.
Autora: Suzanne Collins.
Páginas: 400 páginas.
Editora: Rocco Jovens Leitores. 
ISBN: 978-85-7980-024-5.


“Levar as crianças de nossos distritos, forçá-las a se matar umas às outras enquanto todos nós assistimos pela televisão. Essa é a maneira encontrada pela Capital de nos lembrar como estamos totalmente subjugados a ela. De como teríamos pouquíssimas chances de sobrevivência caso organizássemos uma nova rebelião. Pouco importam as palavras que eles utilizam. A mensagem é bem clara: “Vejam como levamos suas crianças e as sacrificamos, e não há nada que vocês possam fazer a respeito. Se erguerem um dedo, nós destruiremos todos vocês da mesma maneira que destruímos o Distrito Treze”.

Algumas Impressões 

         Há alguns anos, quando o filme “Jogos Vorazes” chegou aos cinemas baseado no livro de mesmo nome, logo me interessei por esta distopia, ou seja, esta história que se passa em um futuro marcado por uma dura e opressiva realidade imposta por um governo extremamente controlador. Antes o que hoje conhecemos como a América do Norte, o continente de Panem é composto por treze distritos e uma Capital, que os controla em um rígido sistema. Como consequência de uma rebelião fracassada, há 74 anos o décimo terceiro distrito foi dizimado, e, como uma punição pelos anos de guerra, a Capital criou os Jogos Vorazes, uma disputa anual televisionada onde um garoto e uma garota de cada distrito – entre doze e dezoito anos - são sorteados e obrigados a lutar em uma arena. A partir daí os vinte e quatro tributos, como são conhecidos os competidores, devem disputar uns com os outros até a morte, pois apenas um pode ser o vencedor (a). Símbolo do fracasso da rebelião, os Idealizadores utilizam os Jogos para entreter a caricata população da Capital, mas, acima de qualquer outra coisa, para demostrar aos demais distritos quem detém o poder. Em um dos mais pobres e oprimidos distritos, o Distrito 12, é que mora nossa protagonista, Katniss Everdeen, uma garota de 16 anos que, após perder o pai em um acidente nas minas de carvão (principal atividade do distrito), caça ilegalmente na floresta para manter sua família alimentada. Entretanto, quando a conhecemos sua maior preocupação não é com o que comerão no jantar, mas sim com a Colheita – a cerimônia que sorteia os tributos da vez. Com seu nome inscrito inúmeras vezes por conta da troca por alimentos (as chamadas tésseras), Katniss nem mesmo se deu ao trabalho de preocupar-se com a possibilidade de que sua irmã menor, Prim, fosse escolhida. Mas como a realidade se prova cada vez mais brutal, a despeito das probabilidades Prim é escolhida, o que força Katniss – em um ato desesperado - a oferecer-se como tributo em seu lugar. Agora ela terá de enfrentar a arena, os Jogos Vorazes, e superar seus 23 concorrentes se quiser voltar para casa. Mas até onde ela estaria disposta a ir para que isso se torne possível?


“Deve ter havido algum engano. Isso não pode estar acontecendo. Prim era uma tirinha de papel entre milhares! Suas chances de ser escolhida eram tão remotas que nem me dei o trabalho de me preocupar. Eu não tinha feito tudo? Não tinha pegado as tésseras e me recusado a deixar que ela fizesse o mesmo? Uma tirinha de papel. Uma tirinha de papel em milhares. A probabilidade era completamente favorável a ela. Mas não adiantou nada”.

           Eu já havia assistido ao filme algumas vezes, mas, como já era de se esperar, o livro mostrou-se uma experiência infinitamente mais gratificante. Com uma leitura fácil e envolvente ao mesmo tempo em que aborda um assunto em essência tenso e com um potencial reflexivo absurdo, inclusive acerca de nossa própria realidade mundial (e nos tempos atuais mais do que nunca), a trama dá início a várias discussões, como governos opressivos, sociedades precariamente mantidas pelo domínio do medo, e as formas que podemos encontrar de nos manter fiéis a nós mesmos, mesmo em casos de extrema pressão, entre outras. Com pouco mais de trezentas e noventa páginas, pode ser lido em uma só oportunidade, o que de fato fiz, mas o que apresenta se faz presente na mente do leitor por muito e muito tempo, o que acentua sua originalidade e potencial em meio a tantos best-sellers do mercado literário e cinematográfico (em outras palavras, é uma história com um conteúdo absurdo, e não apenas mais uma “franquia de sucesso” do show business). As particularidades do enredo e do mundo onde é ambientado pensadas pela autora Suzanne Collins são únicas, e conferem uma aura de realismo sem precedentes. É como se nos transportássemos para esta realidade de tal modo que pudéssemos nos imaginar de fato como parte da subjugada nação de Panem, governada pelo Presidente Snow. Todas as peças são bem colocadas, e nenhuma informação está fora do lugar, de modo que nada é escrito em vão. Cada distrito possui sua função explícita, com as atividades que juntas fazem com que o continente se mantenha, principalmente a ostensiva Capital. Com uma construção exemplar, tanto psicológica quanto visual e também narrativa, os personagens de Collins despertam os mais conflitantes e radicais sentimentos, do amor ao ódio, da pena à genuína tristeza. Descritivo, e deste modo imersivo, ele não é de forma alguma tedioso, pois possuí a dose certa de ação e emoção intercalada com os momentos narrativos mais “tranquilos” – se é que posso dizer que algo assim ocorre durante os capítulos. Sob a narração de Katniss, que em nada concorda com o sistema imposto pela Capital, mas também com um apurado instinto de sobrevivência, a trama deixa de lado a imparcialidade, transmitindo ao leitor sua mensagem clara e objetiva (ou seriam suas mensagens?). Não é um lançamento ou uma história desconhecida, e acredito que praticamente todo mundo já tenha assistido a pelo menos um dos quatro filmes que derivaram da trilogia, mas, se posso gozar de um pouco de crédito com esta resenha, deem uma chance aos livros. Mesmo que sua opinião acerca do filme não seja boa. Pois com todo este potencial social, político e, claro, literário, Jogos Vorazes é uma história que irá te acompanhar muito além da última página.



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2 comentários:

  1. Eu só fui ler a trilogia ano passado, e admito que me surpreendi muito. O primeiro livro é bem diferente do filme em alguns momentos e isso me fez ver o quanto as produções cinematográficas nem sempre são fiéis. Sendo bem sincera, prefiro os livros rs. Adorei a resenha e concordo com tuas impressões, há um ponto focal sobre a sociedade e o governo muito forte. Aliás, ficou sabendo que a Rússia criou um Jogos Vorazes real? Infelizmente não entenderam as entrelinhas.

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    1. Eu estou para começar o segundo livro, e também me surpreendi com o primeiro. Eu gostei muito mais, principalmente pela forma que alguns personagens são de verdade, como o Peeta. No filme eu odeio ele kkkkkkkk Menina, não fiquei não! Vou pesquisar NOW! Um beijo :*

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