quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Resenha: Aconteceu Naquele Verão


“Gracie lançava pedrinhas na lagoa, fazendo-as quicar na superfície da água, dizendo a si mesma para não cutucar a casquinha do machucado no joelho porque, quando chegasse seu aniversário de quatorze anos, queria ficar bonita no short jeans que cortara ainda mais curto. Cutucou a casquinha mesmo assim, quando ouviu um barulho na água. Viu uma, duas, três corcovas irromperem na superfície azul, uma pequena cordilheira cintilante que apareceu e logo sumiu, seguida pelo chicotear de – embora sua mente se recusasse a aceitar, ao mesmo tempo que bradava: - uma cauda”.

Sinopse: “Bem-vindos à estação mais ensolarada e apaixonante de todas! No verão, somos todos iguais, diz um dos personagens do conto “Mil maneiras de tudo isso dar errado”. No Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar do globo, uma coisa é certa: no verão, nossos corações ficam mais leves, mais corajosos, impetuosos e confiantes – talvez por isso seja a estação perfeita para se apaixonar.... e Aconteceu naquele verão é o livro ideal para quem adora histórias de amor. Mas essa coletânea tem algo ainda mais especial. Algumas histórias têm uma pitada de estranheza, de mistério, um toque sobrenatural. Em “Cabeça, escamas, língua, calda”, a lagoa de uma cidadezinha é morada de um monstro marinho que só uma menina vê. No intrigante “Inércia”, dois grandes amigos há muito afastados vão se encontrar num quarto de hospital para uma última visita. No belo “O mapa das pequenas coisas perfeitas” é sempre dia 4 de agosto. Presos num loop temporal, dois jovens vão comprovar do que a força do amor é capaz. A lição é simples: o amor não escolhe lugar nem hora para surgir. Coloque seus óculos escuros e abra sua cadeira de praia, porque neste verão você terá doze motivos para suspirar e se apaixonar”.

Título: Aconteceu Naquele Verão. 
Organização: Stephanie Perkins. 
Páginas: 384 páginas.
Editora: Intrínseca.
ISBN: 9788551001158.


“Quando eu estava no primeiro ano e vinha sempre para este mesmo pátio com Blake, sabia que o que a gente tinha não duraria muito. Mesmo curtindo a sensação do braço dele me envolvendo. Mesmo gostando do jeito como ele me olhava, gostando de ser a namorada dele. Porque, mesmo naquela época, certas verdades a meu respeito começavam a vir à tona, das profundezas do meu coração. E agora, parada no corredor do lado de fora de uma aula que não preciso assistir, essas verdades irrompem de novo. Porque foi Mimi Park quem as liberou da primeira vez”.

Algumas Impressões 

        Tenho uma relação delicada com os livros de contos: se por um lado adoro a possibilidade de conhecer diversas histórias através de um único livro, por outro fico exasperada quando eles me envolvem e simplesmente acabam, deixando aquela sensação de que algo está incompleto (Oi, “O Adulto” da Gillian Flynn). Entretanto, as características positivas desse tipo de leitura sempre acabam falando mais alto, como no caso de “O Presente do Meu Grande Amor” (clique para ler a resenha), uma coletânea de contos publicada pela Editora Intrínseca e que traz doze histórias de diferentes autores, mas com um detalhe: todos com temática natalina. O livro, lançado em 2015 e organizado pela autora Stephanie Perkins, é permeado por um clima gostoso de inverno que aquece os corações através de narrativas cheias de romance (eu gostei tanto que até comprei mais dois exemplares para presentear amigas queridas). E se a fórmula deu certo, nada melhor do que repetir a dose, só que, dessa vez, trazendo um verdadeiro tributo ao verão e tudo o que ele tem de melhor: férias, sol, praia, diversão e amores. “Aconteceu Naquele Verão”, também tem doze contos ambientados no universo young adult (jovem adulto), e aborda temáticas como trabalhos temporários, dramas escolares ou familiares, erros e recomeços, inseguranças, amadurecimento, e claro, romances de verão (o que, na verdade, é o grande mote do livro todo). Cada conto é de autoria de um autor ou autora diferente, sendo eles Leigh Bardugo, Nina Lacour, Libba Bray, Francesca Lia Block, Stephanie Perkins (que também organiza a edição), Tim Federle, Veronica Roth, Jon Skovron, Brandy Colbert, Cassandra Clare, Jennifer E. Smith e Lev Grossman. Confesso que eu só conhecia três autoras desta lista, mas me surpreendi positivamente com a narrativa de todos, pois cada um traz um diferente, impactante e misterioso ponto de vista, o que torna a experiência de leitura muito prazerosa.


“Até mais. A não ser que sejamos assassinados durante o sono por forças malignas”, eu dizia. Dani dava uma risada e um aceno de leve, e por todo o caminho de volta para casa eu ficava me perguntando o que aquele gesto significava, interpretando cada movimento dos dedos dela e ficando cada vez mais esperançoso. Eu entrava em casa, tomando cuidado para não pisar nas garrafas de vodca vazias deixadas pela minha mãe. Então eu me deitava na cama e deixava o filme de terror Dani-Kevin da minha cabeça se desenrolar até a inevitável conclusão romântico-vitoriosa”.

     Dentre os contos, diferentemente de “O Presente do Meu Grande Amor”, temos histórias fantásticas, de circos itinerantes assombrados à filmes amaldiçoados e monstros da criptozoologia, além de uma discussão bem colocada sobre amor livre, com casais formados por homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens, mulheres e criaturas... Uma pluralidade que me conquistou, e muito. Os autores também trouxeram à tona assuntos como sexualidade, aceitação, depressão, perdão e até mesmo autismo, unindo leveza, ficção e realidade em tramas impossíveis de abandonar até que se chegue à última página. Meus contos favoritos foram “Mil Maneiras de Tudo isso dar Errado” (Jennifer E. Smith) e “Cabeça, Escamas, Língua, Cauda” (Leigh Bardugo). O primeiro narra a história de um encontro amoroso incomum e extremamente complexo, onde ao mesmo tempo em que a autora traz um romance fofo e cativante, chama a atenção para a importância de darmos atenção às crianças e jovens autistas. Já o segundo é o conto que abre o livro, e logo de cara fiquei intrigada com a construção do enredo. O desfecho me surpreendeu com tamanha simplicidade e fantasia. Não posso deixar de destacar também o conto da autora Cassandra Clare (Série Instrumentos Mortais), que, seguindo o estilo fantasioso já típico dela, traz demônios e protagonistas fortes, além da história escrita pela organizadora Stephanie Perkins, que surpreendeu ao trazer a continuação do conto publicado em “O Presente do Meu Grande Amor”! Uma leitura indicada para diferentes gostos literários, dos contos com elementos dolorosos e sombrios que levam à reflexão, aos mais leves e superficiais, que acabam no bom e velho final feliz.


Sobre a Intrínseca

Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.



2 comentários:

  1. Respostas
    1. O livro é bem bacana, mas tem alguns contos muito bons e outros que eu não queria ter lido Hahahahaha Um beijo :*

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