domingo, 16 de outubro de 2016

Resenha: O Placebo Junkies


“Então, vocês querem ser cobaias profissionais. Primeiro, sintam sua pele. Vão em frente, façam isso. Aposto que é delicada e lisa. Escolham a parte mais macia. A pele do interior do antebraço, ou talvez aquela faixa estreita logo atrás da orelha. Não me importa o quanto suas vidas têm sido difíceis, sempre há algum lugar que ainda é macio. Agora imaginem esse lugar liso e macio todo cheio de bolhas e calombos. Imaginem picos e fendas, erupções e pústulas. Essa vida lhes dá toda uma topografia nova – inchaços e hematomas, marcas e cicatrizes. Suas partes macias nunca mais serão as mesmas”. 

Sinopse: “Conheça Audie: rata de laboratório profissional, cobaia, voluntária em série de testes em humanos. E junto com seus amigos, o termo “voluntário” em testes de drogas farmacológicas significa somente um esquema rápido e uma grana fácil. Claro, às vezes, há o efeito colateral ruim. Mas Audie mantém as coisas sob controle. Se o comprimido de segunda-feira provoca uma erupção, a pomada de terça em geral acaba logo com ela. A injeção de quarta alivia o incômodo da “cura” de terça, e o procedimento de quinta a faz esquecer completamente da dor de cabeça da quarta. Quando chega a sexta-feira, ela já tem muito dinheiro na mão, e talvez até uma vaga em um estudo financiado pelo governo sobre psilocibina, porque é FIM DE SEMANA! Mas o melhor de todos os esquemas é seu namorado, Dylan, cuja doença terminal apenas os torna mais compatíveis. Ele faz dezoito anos em breve, por isso Audie está economizando para fazer daquele um aniversário inesquecível. Isso significa mais testes de drogas do que nunca, mas Dylan vale a pena. Não há ganho sem dor, diz Audie para si mesma enquanto os comprimidos corroem seu corpo e sua mente. Não há ganho sem dor, ele repete para si mesma enquanto começa a perder o controle sobre a realidade... Na tradição de Trainspotting, este é um livro que exige atenção. É brutal e irreverente, e seus leitores ficarão presos na leitura até o fim, através da narrativa sem piedade de J. C. Carleson”. 

Título: O Placebo Junkies: Piratas de Laboratório.
Autora: J. C. Carleson.
Páginas: 302 páginas.
Editora: Fábrica 231.
ISBN: 978-85-68432-75-4.


“A primeira coisa que vocês deveriam saber é que nem todos os testes clínicos são elaborados da mesma maneira. Há uma regra geral: quanto melhor paga, provavelmente mais vai doer. Mais sobre isso depois. Supondo que vocês consigam aguentar, que não sejam a porra de uma florzinha delicada que não aguenta ver sangue, e que também não fiquem incomodados com coisas tipo exposição à radiação, eis algumas dicas sobre como ganhar a vida como cobaia humana”.

Algumas Impressões 

          A primeira coisa que você deve saber é que, ao terminar a leitura de “O Placebo Junkies”, da autora J. C. Carleson, eu estava completamente sem palavras, estarrecida com a narrativa e imersa em uma profunda reflexão acerca das temáticas apresentadas. Foram necessários apenas dois dias para concluir as pouco mais de trezentas páginas, mas mais dois até que eu fosse capaz de pensar em algo para escrever nesta resenha. O enredo é brutal, tal como apresentado na sinopse, e brinca com a mente do leitor através dos muitos efeitos colaterais da trama, distorcendo a realidade a todo o momento e exigindo total atenção aos seus mínimos detalhes. A história gira em torno de Audie, uma garota que ganha a vida como “rata de laboratório profissional”, ou seja, como cobaia humana para testes de drogas (remédios, substâncias e produtos) de grandes empresas farmacêuticas. Sua rotina é marcada por seleções para participar de estudos, injeções, comprimidos, exames e salas de espera, além de uma gama quase infinita de efeitos colaterais. Mas tudo isso vale a pena por conta do dinheiro que recebe em troca, o qual ela está juntando para fazer uma grande surpresa para o namorado, Dylan, diagnosticado com uma doença terminal. Com um passado complicado, dia após dia, Audie se convence de que não há ganho sem dor, e, para alcançar seu objetivo, não poupa esforços, se inscrevendo para todos os testes possíveis mesmo enquanto os comprimidos corroem seu corpo e mente. Com personagens complexos e muito bem construídos, a autora nos transporta a um mundo novo, implacável e extremamente pautado pelo corporativismo, onde a “qualidade de vida” e a cura de doenças através de novas técnicas e medicamentos passa por uma série de testes realizados nas mais diversas frentes, inclusive em cobaias humanas, determinantes para o sucesso deste processo.


“Então, sim, os efeitos colaterais podem ser ruins. Mas o dinheiro é bom, e as probabilidades de sobrevivência são muito melhores aqui do que de onde eu venho. Pense dessa forma: os pesquisadores e as empresas farmacêuticas têm todo o interesse em mantê-lo saudável. Eles querem que você fique bem. Eles informarão se seus exames de sangue derem resultados estranhos, vão fazer curativos em seus ferimentos, alimentarão você se passa mais de uma ou duas horas em seus laboratórios – estou falando de coisas orgânicas, queijo feta, esse tipo de coisa. Eles não querem ninguém morrendo por sua causa, precisam que estejamos saudáveis. Eles nos querem vivos”. 

       Mesmo tendo uma relação próxima com a área da saúde (minha tia é da área e atua como professora em cursos de ensino superior), o uso de cobaias humanas que são pagas para participarem dos testes era algo sobre o que eu nunca havia parado para pensar, um mercado o qual desconhecia quase totalmente. Para falar a verdade, isso nem mesmo havia passado pela minha cabeça, exceto em casos de estudos experimentais para a cura desta ou daquela doença, onde pacientes “reais” se inscrevem na esperança de serem curados, libertos do sofrimento e da sombra da morte. No que diz respeito aos demais testes, como de remédios e maquiagens, por exemplo, sempre vi notícias sobre serem realizados em animais (quem não se lembra do ato pela libertação dos Beagles alguns anos atrás e que ganhou notoriedade na mídia?). A narrativa tal qual apresentada a cada capítulo me impactou de muitas formas. Enredos com temáticas médicas, principalmente os que giram em torno de doenças e tratamentos, costumam me prender de forma profunda, por conta da experiência pessoal que tive com a minha mãe há cerca de dois anos. A autora trás os assuntos à tona sem piedade, desnudando a realidade deste mundo tão complexo e a pleno funcionamento há décadas, tudo sob a narrativa irreverente e sincera de Audie, intercalando capítulos de narração direta em primeira pessoa com flashbacks e postagens escritas por ela em um blog que mantém voltado para orientar futuras cobaias. Sei que pode parecer clichê dizer que o livro me surpreendeu, não só pela temática, mas também pelo desfecho. Entretanto, não há outra forma de descrever o que aconteceu. Próximo ao fim da trama, uma reviravolta surpreendente fez com que eu questionasse tudo o que tinha lido até o momento, ao mesmo tempo respondendo perguntas e deixando lacunas ainda maiores que só fizeram por me deixar mais ansiosa em relação ao verdadeiro desfecho da narrativa de Carleson. Acredite quando digo que nada poderia preparar nem mesmo o mais atento leitor para o brilhante plot que a autora planejou em “O Placebo Junkies”, e que, mesmo que testes e um número expressivo de comprimidos não façam parte da sua rotina, você vai sofrer com os efeitos colaterais causados por esta leitura. 



Sobre a Editora Rocco

Há mais de três décadas demonstrando sensibilidade para detectar as tendências do mercado, ousadia na difusão de novas ideias e agilidade de produção, a Rocco se orgulha por ser uma editora sólida e independente, capaz de se reinventar a cada dia para atender aos anseios do público brasileiro. Seus selos são: Rocco, Rocco Jovens Leitores, Rocco Digital, Bicicleta Amarela, Fábrica 231, Fantástica Rocco, Anfiteatro e Rocco Pequenos Leitores.

2 comentários:

  1. Meu deus Le, que resenha!

    Eu quase solicitei o livro em parceria com a editora, mas acabei deixando-o de lado e acho, talvez, que eu tenha me arrependido lendo a sua resenha. Tenho procurado mesmo narrativas mais brutais e diferentes, porque to cansada de ler os YA que tenho lido, então: socorro! Haha

    www.anneandcia.blogspot.com.br

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    1. Obrigada <3 Eu AMEI esse livro e estou pensando aqui que você devia ter solicitado ele também sabe KKKKKK É muito bom, envolvente, original e bugou o meu cérebro, praticamente KKKKKK Um beijo :*

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