quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Resenha: Confissões do Crematório


“O forno estava pronto para o primeiro corpo quando a temperatura dentro da câmara de tijolos da retorta chegava a 815 graus Celsius. Toda manhã, Mike empilhava várias autorizações do estado da Califórnia na minha mesa, que me diziam quem estava na fila para as cremações do dia. Depois de selecionar duas, eu tinha que localizar minhas vítimas no “frigorífico”, a câmara de refrigeração de corpos onde os cadáveres esperavam. Em meio a um sopro gelado de ar, eu cumprimentava as pilhas de caixas de papelão com corpos, cada uma com o nome completo e a data de morte da pessoa. O frigorífico tinha cheiro de morte no gelo, um odor difícil de identificar, mas impossível de esquecer”.

Sinopse: "A morte é a única certeza da vida. Então, porque evitamos tanto falar sobre ela? Morrer é inevitável, sentimos muito. Mas, pelo menos, como descobriu Caitlin Doughty, ficar a sete palmos do chão é uma opção. Ainda jovem, Caitlin conseguiu um emprego em um crematório na Califórnia e aprendeu muito mais do que imaginava preparando corpos para a incineração. A exposição constante à morte mudou completamente sua forma de encarar a vida, e a necessidade de dividir suas experiências transformaram a agente funerária em uma escritora e youtuber muito peculiar. O resultado é um livro surpreendente, repleto de memórias sinceras, hilariantes e transformadoras". 

Título: Confissões do Crematório (Smoke Gets in Your Eyes: And Other Lessons from the Crematory).
Autora: Caitlin Doughty.
Páginas: 256 páginas.
Editora: DarkSide Books.
ISBN: 978-85-9454-000-3.

 

“Era uma vez, no passado remoto, um povo chamado Wari’ que vivia nas florestas do oeste do Brasil, sem contato nenhum com a civilização ocidental. Mais tarde, no começo dos anos 1960, o governo brasileiro chegou no território Wari’ acompanhado de missionários cristãos, e os dois grupos tentaram estabelecer relações. Os intrusos levaram com eles uma série de doenças (malária, influenza, sarampo) que o sistema imunológico dos Wari’ não tinha precedência para combater. Ao longo de poucos anos, três de cada cinco índios estavam mortos. Os que sobreviveram ficaram dependentes do governo brasileiro, que fornecia remédios ocidentais para eles lutarem contra as novas doenças ocidentais. Para receber remédio, comida e ajuda do governo, os Wari’ foram obrigados a abrir mão de um aspecto importante da sua vida: o canibalismo”.

Algumas Impressões 

         Nascida em Oahu, no Havaí, Caitlin Doughty é agente funerária, autora, blogueira e youtuber, e se dedica principalmente a defender a aceitação da morte e a reforma das práticas da indústria funerária ocidental. Até os oito anos de idade nunca tinha se preocupado com a mortalidade, até que testemunhou a morte de uma garotinha em um Shopping Center. Nos anos que se seguiram, tornou-se obcecada com o assunto e vivia atormentada pelo medo de que ela ou algum membro de sua família viessem a falecer. Formada em história medieval com foco em morte e cultura pela Universidade de Chicago (onde estudou os julgamentos de bruxas no início do período moderno), a autora acredita que, caso tivesse tido a oportunidade de enfrentar a realidade da morte da criança de forma clara e menos “metaforizada” teria se recuperado melhor, e o incidente não a afetaria tanto quanto afetou durante o restante da infância e a adolescência. Após a formatura, Caitlin se mudou para a cidade de São Francisco, e, aos 23 anos – apesar de sua falta de experiência na prática funerária - começou a trabalhar no crematório da casa funerária Westwind Cremation and Burial, onde buscava cadáveres em casas e hospitais e preparava-os para visitações e enterros, operava as gigantescas máquinas de cremação (as retortas), e entregava as cinzas dos falecidos às famílias – isso fora lidar com a burocracia, tanto para aquisição de certificados de óbito quanto para obter a liberação de corpos junto aos legistas. E é principalmente neste cenário que se desenrolam as várias histórias (reais) vividas pela autora - muitas delas divertidamente mórbidas -, e publicadas em “Confissões do Crematório: Um livro para quem planeja morrer um dia”. Lançado pela DarkSide Books, o livro também conta com inúmeras curiosidades e fatos históricos, mitológicos e filosóficos sobre o corpo, a mortalidade e a morte (e suas representações nas diversas culturas), além de explicações realistas e detalhadas das situações do dia a dia de uma casa funerária. Para os editores, “enquanto varre as cinzas das máquinas de incineração ou explica com o que um crânio em chamas se parece, ela desmistifica a morte para si e para seus leitores” (Fonte: Caveirinha).


“A faculdade funerária me deixou tensa a ponto de eu ficar doente. Quanto mais tempo se passa fazendo uma coisa em que não se acredita, mais os sistemas do corpo se rebelam. Os meses se arrastaram e fui atormentada por gargantas infeccionadas, espasmos musculares e estomatite. Como o dr. Frankenstein refletia enquanto trabalhava na criação do seu monstro, “meu coração muitas vezes adoecia pelo trabalho das minhas mãos”. Era um ambiente estressante, e ir para lá foi, financeiramente falando, uma decisão tola. Porém, eu entregaria minhas economias de vida para qualquer pessoa que me permitisse pular o laboratório de embalsamamento sem repetir na matéria”.

         Primeira obra de não ficção a integrar a coleção DarkLove – uma linha especial da editora para “corações valentes” (a mesma da qual faz parte “The Kiss of Deception – clique para ler a resenha), o livro de Doghty trás reflexões sobre a vida e a morte de maneira honesta e despretensiosa, em uma narrativa inteligente, leve (apesar da temática “pesada”) e bem construída. Publicado originalmente em 2014 pela W. W. Norton & Company e nomeado como “Smoke Gets in Your Eyes”, o título faz uma homenagem à música pop do século XX de mesmo nome (em uma referência tanto à fumaça literal da cremação quanto às emoções), e chega ao Brasil em uma edição impecável da amada Caveirinha, em capa dura e ricamente detalhada. Originalmente pensado como um livro de memórias de suas experiências, também faz às vias de manifesto dos objetivos e pesquisas da autora acerca da mortalidade. Em entrevistas ao The New Yorker e ao Washington Post, Caitlin revelou que sua intenção com o livro era criar um compilado de memórias, ciência e manifesto regado com um toque de humor, de forma que pudesse atrair um público amplo e levá-lo a refletir sobre as questões e particularidades que permeiam a morte, a fim de desafiá-lo a confrontar sua própria mortalidade. Sobre a natureza detalhista do enredo - que fala, dentre outras coisas, sobre o manuseio do cadáver, a remoção de órgãos, o processo de embalsamamento, o processo de apodrecimento e até mesmo como a gordura humana se comporta durante uma cremação -, a autora reconhece que trata de temas um tanto desagradáveis para a nossa cultura, que tenta a todo custo esconder a morte. “Não tenho certeza de que as outras pessoas vão ser capazes de lidar com isso [...] mas eu acho que nós precisamos admitir que, como um grupo, como seres humanos, todos nós somos atraídos para os detalhes. Quando a realidade é escondida de nós, queremos vê-la”, conta.


         Desde que começou a trabalhar na “indústria da morte”, Caitlin Doughty já tinha como objetivo mudar a atitude das pessoas em relação à morte, encontrando alternativas de funeral e outros procedimentos relacionados a ela. Depois de frequentar a Faculdade Funerária de Los Angeles e tornar-se uma agente funerária licenciada, fundou a “Order of the good death” (ou Ordem da boa morte, em tradução literal), uma associação que reúne profissionais da indústria funerária, artistas, escritores e acadêmicos que compartilham das ambições de Caitlin de mudar a forma ocidental de se enxergar temas como a morte, os funerais e o luto. Embora as particularidades do funcionamento de uma casa funerária ocupem grande parte do enredo, é interessante a forma como a autora deixa transparecer seus próprios medos e anseios na narrativa, além de suas descobertas e mudança de pensamento à medida que se aprofunda nos conhecimentos acerca da mortalidade, seja através da prática de seu trabalho, dos estudos ou da convivência com seus três colegas excêntricos da Westwind. Colegas estes que a ensinam cada uma das lições que ela carrega depois de deixar a funerária e embarcar na faculdade de ciências mortuárias.


         Em seu canal no Youtube, Doughty faz sucesso com a série “Ask a Mortician”, iniciada em 2011, onde responde perguntas e explora temas considerados mórbidos com humor, alguns até considerados tabu, como decomposição e necrofilia. Com um tom irreverente e pouco usual para tratar do assunto, ela atrai o público justamente pela forma como aborda a morte, deixando de lado a atmosfera deprimente que a permeia. Para se ter uma ideia, em 2012, depois de doze episódios da série, ela já havia alcançado mais de meio milhão de visualizações no Youtube. “Eu levo meu trabalho e todo esse movimento incrivelmente a sério. Eu faço (os vídeos) com um sentido de humor, mas é a minha vida, e é muito importante para mim que a morte seja transmitida como uma mensagem positiva”, explica (trecho em tradução livre). Através da narrativa pessoal de Doughty, é possível levar o público a uma nova relação com a morte, deixando de lado a face dolorosa e trágica, e dando lugar a uma consciência de nossa própria mortalidade e a necessidade de entendermos e enfrentarmos o medo que sentimos dela. De fato, um livro para ler antes de morrer – e urgentemente, afinal, estamos todos fadados a isso.


Sobre a DarkSide

"Fazemos questão de publicar as histórias que amamos. Algumas viraram filmes, games ou lendas urbanas, mas todas reservam experiências únicas em suas páginas. Edições numeradas de colecionador. Seguindo o padrão quase psicopata de qualidade, cada livro Darkside tem que ser precioso no texto, na capa e no design. Então leia, releia, baixe, divulgue, colecione. No que depender de todos nós, Darksiders, o livro vai continuar mais vivo do que nunca".


5 comentários:

  1. EU PRECISO DESSE LIVRO
    EU PRECISO DESSE LIVRO
    EU PRECISO DESSE LIVRO
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    EU PRECISO DESSE LIVRO
    hahahahahah chega de floodar..
    Eu estou com muita vontade de ler <3

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    1. KKKKKKKK Esse livro precisa de você! Já estou imaginando as fotos maravilhosas que você vai tirar para a resenha! <3 E olha, além de ótima leitura ele é muito fotogênico viu! Hahahaha <3 Um beijo : *

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    2. depois desse comentario da Clay, até eu preciso ler esse livro hhaahah

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  2. Menina, que fotos lindas ♥ Eu amei a diagramação desse livro, assim como de todos da Darkside. Parece que a editora bota um carinho extra em cima das publicação e deixa tudo impecável. A história é bem estranha, não sei se teria coragem de ler, mas parece ser interessante ao ponto de me deixar com aquela curiosidade atrás da orelha aihaiuhe. Adorei a resenha, e sim, as fotos me chamarão uma atenção absurda.

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    1. Obrigada <3 <3 Eu amo a diagramação de todos os livros da Caveirinha, porque é realmente incrível o cuidado que eles têm com cada título, cada detalhe é pensado de forma maravilhosa! A história é incomum, mas eu gostei bastante, pois mostra um lado que eu nem pensava em conhecer e que me despertou para questões que eu não pensava antes. Amei viu! E recomendo demais <3 Muito obrigada mesmo! <3 Um beijo : *

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