sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Resenha: Noturnos


“Olhou-se no banheiro, receoso de que aquele negrume terrível também tivesse apagado sua fisionomia, assim como devorara Roy Benson. Mas não foi isso o que viu. Voltou-se para olhar o cinzeiro ao lado do vaso sanitário. Estava cheio de guimbas, mas um cigarro permanecia aceso e seus últimos anéis de fumaça se dissipavam no ar. Ninguém na casa fumava. Ninguém fumava, nem bebia, nem dizia palavrões. Ninguém fazia outra coisa a não ser trabalhar e rezar. E, nos últimos dias, apodrecer como carne velha. Foi então que Jerry entendeu por que os Bensons não tinham pedido ajuda. Alguém mais estivera lá, concluiu. Alguém mais estivera lá e ficara só olhando enquanto a família agonizava”.

Sinopse: “Contar uma história está no âmago da experiência humana. É como nos expressamos, como nos relacionamos com o mundo. A cada dia, escrevemos um capítulo da história de nossas vidas – e os nossos monstros, nossos visitantes das trevas, não são tão facilmente ignorados. Inevitavelmente, eles vêm até nós. Primeira coletânea de contos de John Connolly, Noturnos reúne dezesseis histórias absolutamente assombrosas sobre amores perdidos e crianças desaparecidas, demônios predatórios e fantasmas vingativos, com ecos do trabalho de alguns dos mestres do horror – M. R. James, Ray Bradbury, Stephen King -, mas sem nunca perder a voz inconfundível do autor de O Livro das Coisas Perdidas. Crianças acreditam que monstros são reais. Adultos tentam convencê-las do contrário – ou de que, no final, eles sempre serão derrotados. Em Noturnos, Connolly escreve sobre os mundos infantil e adulto em confronto, sobre adultos forçados a proteger suas crianças e, também, sobre os que precisam lutar contra entidades obscuras decididas a lhes fazer mal”. 

Título: Noturnos
Autor: John Connolly.
Páginas: 294 páginas.
Editora: Bertrand Brasil.
ISBN: 978-85-286-1681-1.


“O bispo era esquelético, com dedos longos e sem rugas. Veias escuras e salientes corriam por baixo de sua pele descorada como raízes de árvores em solo nevado. Completamente careca, sua cabeça estreitava-se no topo até formar uma ponta [...] A não ser pelo colarinho branco, que envolvia o pescoço como uma auréola fora de lugar, suas vestimentas eram todas púrpuras ou carmesins. Ao se levantar para me receber, percebi o contraste entre o solidéu violeta e a palidez de sua cabeça aguda, e me surpreendi ao constatar o quando ele se assemelhava a um punhal ensanguentado”.

Algumas Impressões 

        Acho que as últimas resenhas já deram uma pista de que ando fascinada por histórias de terror e suspense nos últimos tempos né? Inclusive, acho até que falei sobre isso na resenha de “O Adulto”, da autora Gillian Flynn (clique para ler). E o mundo parece estar colaborando para saciar esse meu vicio literário, uma vez que as editoras parceiras têm enviado títulos maravilhosos do gênero. Apesar de não ser um livro de terror muito assustador ou “pesado” como O Exorcista, por exemplo, “Noturnos”, do premiado escritor Irlandês, John Connolly, é uma coletânea composta por dezesseis contos assombrosos. O próprio livro já avisa: não leia à noite, ou você pode se arrepender! Mas como minha rotina semanal não colabora e eu gosto de rir na cara do perigo (até parece), você já pode imaginar a que horas eu li este título. Com uma narrativa envolvente, o autor – que, inclusive, é o primeiro autor não americano a ganhar o aclamado prêmio US Shamus - apela para o psicológico do leitor, envolvendo-o em uma trama tensa e que o deixa cada vez mais intrigado e ansioso pelo desfecho dos contos, mesmo os mais curtos. Com tamanhos variados, apenas dois dos contos possuem um número maior de páginas, sendo “A balada do caubói canceroso” e “As bruxas de Underbury”. Este primeiro inclusive é o que abre a edição, e logo de cara já me conquistou. O que colaborou – e muito – para que eu continuasse a leitura com entusiasmo renovado a cada nova página.


“É melhor prosseguir de acordo com minhas lembranças. Afinal de contas, a história é minha: cabe a mim contá-la, assim como coube a mim vivê-la. Estou velho, mas não sou tolo. Continuo a passar a tranca nas portas e a aferrolhar as janelas quando cai a noite. Continuo a vasculhar as sombras antes de dormir e deixo os cachorros circularem à vontade pela casa, pois o farejarão se ele voltar, e estarei pronto para enfrentá-lo. As paredes são de pedra, e mantemos os archotes acesos. Sempre temos espadas à mão, mas é do fogo que ele mais tem medo. Não levará ninguém de minha casa. Não roubará criança alguma sob meu teto”.

        A sinopse e a capa enganam, pois assim que o recebi pensei que era um livro voltado para um público mais jovem, com histórias menos complexas. Mas olha, me surpreendi! A linguagem e o conteúdo de alguns contos, a exemplo do primeiro, são mais adultas do que eu imaginava, e as tramas, mais complexas. Eu não tenho o costume de ler muitos contos - principalmente pelo fato de não conseguir criar um vínculo com os personagens pelas histórias serem curtas -, mas, contando com “Noturnos”, minhas últimas duas leituras foram do gênero e me conquistaram de forma surpreendente, principalmente por conta da intensidade dos enredos. Gostei tanto de algumas histórias que não reclamaria caso o autor quisesse dedicar todo um livro de duzentas páginas à elas, desenvolvendo-as mais, mas ainda assim fiquei satisfeita ao concluir a leitura. Com uma escrita bastante visual e descritiva, John contribui para a imersão do leitor em suas histórias, pensadas para os mais diversos tipos de público e contando com as mais diversas criaturas, desde bruxas, palhaços do mal e elfos a lobisomens e vampiros. A edição está impecável, e a cor roxa da capa foi a melhor escolha para acompanhar o tom das tramas contidas nela. Adorei e indico demais, além disso estou morrendo de curiosidade sobre outros trabalhos do autor, que lançou o “Livro das Coisas Perdidas” (sobre o qual eu já tinha ouvido falar mas não sabia que era dele), também pela Editora Bertrand Brasil.


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