segunda-feira, 16 de julho de 2018

Resenha: O Homem de Giz

“Nenhum de nós chegou a um acordo sobre quando de fato tudo começou. Foi quando começamos a desenhar figuras de giz ou quando elas apareceram do nada? Foi aquele acidente terrível? Ou quando encontraram o primeiro cadáver? ”. 

Sinopse: “Assassinato e sinais misteriosos em uma trama para fãs de Stranger Things e Stephen King. Em 1986, Eddie e os amigos passam a maior parte dos dias andando de bicicleta pela pacata vizinhança em busca de aventuras. Os desenhos a giz são seu código secreto: homenzinhos rabiscados no asfalto; mensagens que só eles entendem. Mas um desenho misterioso leva o grupo de crianças até um corpo desmembrado e espalhado em um bosque. Depois disso, nada mais é como antes. Em 2016, Eddie se esforça para superar o passado, até que um dia ele e os amigos de infância recebem um mesmo aviso: o desenho de um homem de giz enforcado. Quando um dos amigos aparece morto, Eddie tem certeza de que precisa descobrir o que de fato aconteceu trinta anos atrás. Alternando habilidosamente entre presente e passado, O Homem de Giz traz o melhor do suspense: personagens maravilhosamente construídos, mistérios de prender o fôlego e reviravoltas que vão impressionar até os leitores mais escaldados”. 

Título: O Homem de Giz. 
Autora: C. J. Tudor. 
Páginas: 274 páginas. 
Editora: Intrínseca. 
ISBN: 978-85-510-0293-3. 

“A cabeça da garota estava apoiada em uma pequena pilha de folhas com tom marrom-alaranjado. Os olhos amendoados estavam fixos na copa de figueiras, faias e carvalhos, mas não enxergavam os raios de luz que tentavam atravessar os galhos, salpicando o chão do bosque de dourado. Não piscavam enquanto reluzentes besouros corriam sobre as pupilas. Eles não viam mais nada, exceto a escuridão”.  

Algumas Impressões 

Os thrillers possuem uma capacidade de envolver o leitor diferente de todos os outros gêneros. Seu suspense não depende apenas dos acontecimentos retratados ao longo dos capítulos, mas também da forma como se conecta aos lugares mais obscuros da mente humana, onde os terrores, os mistérios e os medos têm sua origem. E o romance de estreia de C. J. Tudor, “O Homem de Giz”, não foge à regra, sendo uma daquelas histórias que, uma vez iniciada a leitura, tornam-se um caminho sem volta: não há como parar até que a última página seja virada. A trama tem início em 1986, onde um grupo de cinco crianças na casa dos doze anos passa os dias em busca de algo com o que ocupar o tempo. Os amigos possuem um código baseado em desenhos de giz para deixarem mensagens secretas uns para os outros, mas, numa tarde, os homens de giz acabam conduzindo-os para uma descoberta que mudaria suas vidas para sempre. O assassinato colocou a pequena cidade de Anderbury na rota não apenas da imprensa, mas de um número incontável de curiosos, mas o que muitos não sabem é que ele não foi a única coisa estranha que marcaria aquele verão, principalmente para Eddie Adamns. Talvez tudo tenha começado no dia da feira, com o terrível acidente. Ou talvez o mistério teve início com a chegada de um novo professor à cidade, o Sr. Halloran. Trinta anos depois, a gangue já não é mais tão próxima. À medida que o tempo foi passando, cada um seguiu seu caminho e tentou esquecer o passado. Mas, quando um antigo membro do grupo volta à cidade, Ed vai perceber que, se olhar um pouco mais de perto, talvez possa responder a todas as perguntas que ficaram sem resposta. 

“O que há de errado com a pele dele? Os adultos explicaram pacientemente que o Sr. Halloran tinha albinismo. Isso significava que faltava a ele uma coisa chamada “pigmento”, que faz com que a pele da maioria das pessoas assuma uma cor naturalmente rosada ou marrom. E os olhos? A mesma coisa. Faltavam pigmentos. Então ele não é uma aberração, um monstro ou um fantasma? Não, ele não é. Apenas um homem normal com um problema de saúde. Eles estavam errados. O Sr. Halloran era várias coisas, mas normal não era uma delas”. 

Através de uma narrativa em primeira pessoa que intercala duas linhas do tempo distintas, sendo o passado (1986) e o presente (2016), a autora brinca a todo momento com a percepção de realidade do leitor, apresentando fatos de forma subentendida e criando inúmeras tramas paralelas que enriquecem – e muito – o enredo. É um título de leitura relativamente rápida (li em apenas um dia, na última sexta-feira 13), mas que demanda tempo para que se possa compreender todas as suas nuances. Por mais que contenha cenas pesadas e inclua gatilhos como abuso, violência, assassinato, bullying, entre outros, Tudor cria uma atmosfera de medo, inquietação e até mesmo repulsa extremamente envolvente. A gama variada de personagens também merece destaque, e cada um é complexo à sua maneira, protagonizando sub-tramas que apenas contribuem para o brilhantismo do desfecho. Com uma atmosfera oitentista, o livro faz jus à sinopse quando comparado com Stranger Things e até mesmo It – A Coisa, e é possível perceber fortes referências ao autor Stephen King. Entretanto, o que mais me surpreendeu foi minha total incapacidade de antecipar o final. C. J. Tudor consegue amarrar todas as pontas soltas deixadas ao longo dos capítulos, sem deixar brechas. Ela também não abre margem para que o leitor retome o fôlego em nenhum momento, apresentando reviravoltas até o último minuto. É um título que te faz pensar, investigar, querer saber. Por fim, a edição brasileira, publicada pela Editora Intrínseca, é impecável e cheia de detalhes. Em capa dura, mantém o desenho e a organização originais e traz o corte em preto. No mais, é uma leitura extremamente recomendada, mas tenha cuidado com os homens de giz. 

 

Sobre a Intrínseca
Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.



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