quarta-feira, 2 de maio de 2018

Resenha: A Forma da Água

“O deus Brânquia enfim se ergue do baixio, com o sol vermelho como o do Serengueti, o olho antigo do eclipse, o oceano abrindo um mundo novo, a geleira insaciável, o jato de borrifos do mar, a mordida bacteriana, o fervilhar unicelular, a reprodução da espécie, os rios como vias para um coração, a ereção dura da montanha, os quadris móveis do girassol, a mortificação de pelos cinzentos, a pústula vermelho-rosado, o cipó umbilical conectando-os de volta à origem. É tudo isso e mais”. 

Sinopse: “O ano é 1962 e, para Elisa Esposito, todos os dias são iguais. Muda e órfã, ela leva uma vida monótona em seu emprego de faxineira na Occam, um centro de pesquisas espaciais de Baltimore, nos Estados Unidos. Se não fosse por Zelda, sua melhor amiga, e Giles, seu gentil vizinho, mal teria forças para sair da cama. Até que, certa noite, ela vê em um dos laboratórios algo que jamais deveria ter visto: o recurso mais precioso e inteligente da Occam. Um homem-anfíbio, capturado na Amazônia, chamado de deus Brânquia pelo povo local e que será estudado e utilizado em prol dos avanços tecnológicos do país durante a Guerra Fria. O ser é assustador, mas também majestoso, detentor de uma linguagem própria e capaz de entender emoções. Juntos, mulher e criatura aprendem a se comunicar, e logo o afeto que surge entre os dois se transforma em amor, uma amor que dará um novo sentido à existência de Elisa. Mas um obstáculo brutal e repugnante pode colocar um ponto final nessa história. Richard Strickland, o oficial do Exército que capturou a criatura na selva amazônica, quer dar fim à sua missão o quanto antes, e isso significa dissecar, subjugar e matar o ser antes que os inimigos russos botem as mãos nele. Elisa não tem escolha: precisa salvar o amado, nem que para isso tenha que arriscar a própria vida. Com a ajuda de Zelda e Giles, ela elabora um plano arriscado para tirar a criatura da Occam antes que seja tarde demais”. 

Título: A Forma da Água. 
Autores: Guillermo Del Toro e Daniel Kraus. 
Páginas: 352 páginas. 
Editora: Intrínseca. 
ISBN: 978-85-510-0277-3. 

“A água escura se revolve sob a luz fraca. A mulher prende a respiração; parecem vaga-lumes distantes. Ela espalma as mãos na vigia, pressionando o vidro, querendo se aproximar, sentindo uma necessidade física de fazer isso. A substância gira, se retorce, dança como um véu cheio de ornamentos. Entre os pontos de luz, uma forma se aglutina. Lixo flutuante, Elisa tenta dizer a sai mesma, é só isso, e então um facho de luz atinge um par de olhos fotorreceptores. Eles brilham como ouro através da água negra”. 

Algumas Impressões 

Um amor além das palavras”. A frase que sintetiza a narrativa de “A Forma da Água”, uma criação de Guillermo Del Toro, um dos cineastas e escritores de maior personalidade na indústria cultural americana, responsável por produções como “O Labirinto do Fauno” (2006) e “Festa no Céu” (2014), e Daniel Kraus, um premiado autor e roteirista, não poderia ser outra. Publicada no Brasil pela Editora Intrínseca em fevereiro deste ano, a obra ganhou as telas do mundo todo através do longa-metragem de mesmo nome, e conquistou inúmeros leitores e espectadores por meio de um enredo extremamente lúdico e sensível. Ao longo das páginas e também das cenas, somos apresentados às histórias de personagens que, no fim, se cruzam para formar uma única trama, contada não apenas por Elisa, uma servente órfã, muda e desacreditada, mas também por Giles, o artista homossexual ridicularizado; Zelda, também servente, negra e marginalizada; o Dr. Bob Hoffstetler, que guarda um segredo maior do que pode suportar; Elaine, a esposa “perfeita” para os padrões norte-americanos dos anos sessenta; o deus Brânquia, uma criatura ao mesmo tempo fantástica e aterrorizante sem idade ou origem definida; e Richard Strickland, um militar violento e atormentado enviado na missão de capturar o deus na Floresta Amazônica. 

“Elisa estende a mão para ele. Para si mesma. Não há diferença. Agora entende. Ela o abraça, ele a abraça, os dois se abraçam e tudo é escuridão, tudo é luz, tudo é feio, tudo é lindo, tudo é dor, tudo é pesar, tudo é nunca, tudo é eterno”. 

Confesso que é difícil colocar em palavras minha opinião acerca da obra. Isso porque “A Forma da Água” é um título que, mesmo através da ficção e da fantasia, carrega em suas entrelinhas questões históricas, reais e presentes socialmente até os dias de hoje, como a igualdade de gêneros, a luta de classes, a violência doméstica, os terrores da guerra, o preconceito, e também a aceitação, tanto do outro, quanto de nós mesmos. A história se passa nos anos sessenta, tendo como pano de fundo um contexto onde a sombra da guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética se fazia presente, no auge da segregação racial no continente norte-americano, e em meio a uma mudança tímida dos paradigmas que regiam a sociedade. E, dentro da construção narrativa de Del Toro e Kraus, cada personagem protagoniza uma trama única e cheia de significados. Mesmo pensando cada palavra com o cuidado necessário, ainda não consigo expressar de fato os sentimentos que me vieram à tona com este enredo. Acredito que dizer que se trata de uma história de amor entre uma servente muda e uma criatura além da compreensão de tudo e de todos é uma forma muito rasa de se referir a este livro, e aconselho você, leitor ou leitora deste blog, a mergulhar nesta narrativa, e a se permitir enxergar muito além da superfície tudo o que ela pode lhe oferecer. 


Incapaz de definir a tua forma, eu vejo você ao meu redor. Tua presença enche meus olhos com o teu amor, ela acanha meu coração. Porque você está em todo lugar”. 



Sobre a Intrínseca
Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.



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