terça-feira, 13 de março de 2018

Resenha: Me Chame Pelo Seu Nome

Até depois! ” As palavras, a voz, a atitude. Eu nunca tinha ouvido alguém dizer “até depois” para se despedir. Parecia brusco, seco, desdenhoso, pronunciado com a indiferença velada de uma pessoa que talvez não se importe se vai revê-lo ou saber de você novamente”. É a primeira lembrança que tenho dele, e parece que ainda hoje consigo ouvi-lo. “Até depois! ”. 

Sinopse: “É verão na Riviera Italiana. Como todos os anos, o pai de Elio recebe na casa da família um jovem acadêmico para ajudá-lo com suas pesquisas universitárias. O escolhido dessa temporada é Oliver, um americano tão atraente quanto evasivo, que aproveita o clima ensolarado do Mediterrâneo para trabalhar e, claro, se divertir nas horas vagas. Aos poucos, entre banhos de piscina, discussões sobre arte e literatura, passeios de bicicleta, festas no vilarejo e ausências repentinas, um romance intenso como o verão floresce entre Elio e o visitante. Conforme tateiam o instável e desconhecido terreno que os separa, aquilo que inicialmente parecia uma relação de indiferença supera o medo e a obsessão para culminar em uma troca tão íntima que marcará os dois pela vida inteira. Com rara sensibilidade, André Aciman destrincha as facetas do desejo, da descoberta da sexualidade e do início da vida adulta, fazendo de Me Chame Pelo Seu Nome uma crua e memorável elegia à paixão”. 

Título: Me Chame Pelo Seu Nome. . 
Autor: André Aciman. 
Páginas: 288 páginas. 
Editora: Intrínseca. 
ISBN: 978-85-510-0273-5. 

“Pode ser que tenha começado logo que ele chegou, durante um daqueles almoços tediosos, quando sentou-se ao meu lado e finalmente percebi que, apesar do leve bronzeado adquirido durante a breve estadia na Sicília no início do verão, as palmas de suas mãos tinham a mesma cor da pele clara e macia da sola de seus pés, de seu pescoço e da parte interna dos antebraços, que praticamente não haviam sido expostos ao sol. (...) Dizia coisas sobre ele que eu jamais pensaria em perguntar”. 

Algumas Impressões 

A história de Elio e Oliver, que ganhou o mundo através de uma aclamada adaptação digna de Oscar, é um tanto peculiar e extremamente carregada de emoção. Não por conta do enredo em si ou mesmo de sua temática, mas sim por seu narrador, um jovem de dezessete anos no auge das descobertas e dos exacerbados sentimentos juvenis. Confesso que mesmo tendo sido esta uma leitura rápida, demorei muito para colocar em palavras minha opinião (tanto que esta resenha está indo ao ar quase duas semanas depois de concluído o tal livro), e muito disso se deve ao fato já citado acima: a narração. “Me Chame Pelo Seu Nome”, do autor André Aciman, conta a história de um jovem que, devido as atividades acadêmicas de seu pai, todo verão recebe um novo hóspede na casa da família na Riviera Italiana. O escolhido da vez é o acadêmico Oliver, um americano aspirante a escritor extremamente evasivo e atraente. Com o passar das semanas, a presença do homem faz com que Elio passe por uma jornada de autoconhecimento, aceitação e descoberta, principalmente no que diz respeito à sexualidade e à vida adulta, o que resulta na formação de laços de desejo, cumplicidade e paixão. E estes laços marcarão a ambos pelo resto de suas vidas. 

“Mas talvez tenha começado bem mais tarde do que acredito, sem que eu percebesse. Você vê a pessoa, mas não a enxerga de verdade, ela simplesmente está por ali. Ou até enxerga, mas nada bate, nada “chama a atenção” e, antes mesmo que você perceba uma presença ou algo incômodo, as seis semanas que lhe foram oferecidas já passaram e a pessoa já foi embora ou está prestes a ir, e você fica lutando para aceitar algo que, sem que você soubesse, vinha ganhando forma bem debaixo do seu nariz, trazendo consigo todos os sintomas daquilo que só pode ser chamado de desejo”. 

Antes de mais nada, não me entendam mal: é uma trama pertinente, poética, repleta de referências à cultura erudita e muito bonita, com uma mensagem intrínseca sobre aceitarmos quem somos e não negarmos nossos desejos, além é claro de todas as particularidades que acompanham o “primeiro amor”. Entretanto, a narração extremamente fantasiosa, delirante e detalhista de Elio (além de monotemática) não permitiu que eu fosse completamente feliz com esta leitura. Inúmeras vezes precisei voltar algumas páginas para me situar se a situação à qual ele se referia havia acontecido de fato ou era apenas mais um de seus roteiros imaginários. A questão é que o autor proporciona aos leitores uma visão da mente do jovem durante as vinte e quatro horas de todos os sete dias de todas as semanas do verão em que Oliver entrou em sua vida (e até um pouco além), o que, em diversos momentos, pode tornar o enredo maçante e um tanto repetitivo. Em outras palavras, a confusão decorrente do misto de sentimentos de Elio muitas vezes me incomodou, mesmo que eu soubesse o contexto no qual ele se encontrava. 

“Eu estava tão desesperado que meu rosto deve ter demonstrado algo que beirava impaciência e raiva implícita. Nunca passou pela minha cabeça que ele pudesse pensar que esses sentimentos eram direcionados a ele. Talvez por isso eu desviasse o olhar sempre que ele olhava para mim: para esconder a tensão de minha timidez. Também nunca me passou pela cabeça que ele pudesse se ofender com meu comportamento evasivo e retaliá-lo com um olhar hostil de vez em quando. O que eu esperava que ele não tivesse percebido em minha reação exagerada era outra coisa”. 

Outro ponto importante e que precisa ser levantado é que está é uma leitura para dois tipos de leitores: os que possuem a mente aberta e livre de preconceitos e os que desejam alcançar este patamar. Digo isso pois algumas das associações e metáforas utilizadas por Aciman podem incomodar os “mais sensíveis” (como a história do pêssego, por exemplo). Inclusive, antes de fazer a leitura, li comentários de pessoas falando sobre a obra (muitos os quais não a leram), onde o autor era acusado de romantizar um relacionamento ilícito, alegando até mesmo que o livro se tratava de uma dinâmica abusiva e que continha cenas de estupro. Posso afirmar que este não é o contexto apresentado, e que nenhum dos personagens (seja Oliver, Elio, Marzia ou qualquer outro) faz algo que não sinta vontade. “Me Chame Pelo Seu Nome” é, acima de tudo, uma ode à liberdade: a sexual e a de ser quem somos, a de amar e ser amado, a de se permitir sentir e a de saber os próprios limites. Seja você um expectador que assistiu ao filme e deseja se aprofundar nesta trama ou apenas alguém com curiosidade sobre esta história tão comentada, é uma leitura recomendada. Mas se você, assim como eu, não tem muita paciência para narradores como Elio, já comece se preparando para momentos de frustração com o garoto, onde, independentemente de onde esteja fazendo a leitura, você se vê gritando com o personagem para que tome esta ou aquela atitude, ou fazendo como Oliver e aderindo a uma enigmática e inconclusiva postura de “Até depois! ”. 


Sobre a Intrínseca
Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.




2 comentários:

  1. Aiai, alguns personagens tomam nossa paciência mesmo, né? Talvez eu assista o filme antes de tentar ler o livro, pois ouvi coisas boas a respeito da atuação!

    De qualquer maneira, acho importante o assunto ser sempre comentado... Para nos dar perspectivas diferentes e nos fazer pensar!

    Beijos!

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    Respostas
    1. Tiram demais! Eu quase tive um troço com esse menino hahahaha Também acho que o assunto é super importante! Um beijo <3

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