terça-feira, 14 de novembro de 2017

Resenha: Luz Em Nevoeiro

“Não é que a editora esteja em ruínas. Nós seguimos publicando. Não há mês em que dos nossos escritórios não saia ao menos uma capa nova para as coleções já existentes. Mas há anos o mercado editorial mudou, embora alguns dos funcionários mais antigos discordem inteiramente do fato e neguem até mesmo a ausência de novos grandes escritores”. 

Sinopse: “Um tipo magro espera por algo (que bem pode ser um ônibus ou uma fatídica alegria) recostado em uma mureta na esquina da Avenida 18 de Julho. 18 de Julho que bem poderia se chamar Andradas, Andradas que bem poderia ser a rua que avança até uma região de mergulho (“El Buceo”) em uma capital platina que fosse banhada por mar. Na direção oposta, dentro de um dos apartamentos de uma das edificações que projetam sua sombra, mas não do lado da água, alguém coloca um pires sobre a xícara e se ajeita na escrivaninha para tentar traduzir as páginas 17 e 18 de “El Lugar”, de Mario Levrero. Enquanto isso, uma torrada recém saída repousa sobre o balcão da lanchonete Meio-Dia. Há um vagar algo alquebrado naqueles que saem do estádio, a esta hora da noite, e percorrem transversais igualmente cansadas. E há, grudada à gola de antigos livreiros, a penumbra de carícia retida num dia de chuva como esse que já foi. Nada disso, mas também isso, está nesse volume de contos de Iuri Müller, onde o tempo vai em velocidade reduzida mas ainda assim deixa entrever seus destroços. Como estão neles o silêncio e a espessura que emanam da mata adjacente àquelas casas do meio da escuridão”. 

Título: Luz Em Nevoeiro.
Autor: Iuri Müller.
Páginas: 160 páginas.
Editora: Modelo de Nuvem (Um selo da Editora Belas Letras).
ISBN: 978-85-81743-45-5.

“Adiou a volta para casa durante horas, até instante em que decidiu embarcar num dos ônibus azuis, na parada mais próxima do Edifício Paris. Pagou a passagem sabendo que era possivelmente a última vez que fazia aquele trajeto. Nem bem abriu a porta de casa, percebeu que resistiria por pouco tempo na cidade. Nem era tanto o desemprego que o angustiava, mas as imagens que tinha acumulado e que agora voltavam todas aos olhos”. 

Algumas Impressões 

Na literatura, assim como na vida, é bom testar limites e dar chance às coisas novas, mas principalmente sair da própria zona de conforto. Na última semana, acompanhei em um grupo de interação para blogueiros do qual participo no Facebook, uma discussão sobre o que é ser leitor ou não, aquela velha história de quem tenta encaixar a leitura em apenas um padrão tido como “culto” e “politizado”, o patamar dos clássicos que “todo mundo que se considera leitor precisa ler”. Particularmente, tenho meus gêneros de preferência, mas, como já comentei por aqui diversas vezes, as parcerias com as editoras têm contribuído muito para que eu conheça novos títulos e autores, e acabe transformando a minha forma de consumir literatura como um todo. A questão é que, não é só porque li uma obra considerada clássica e um outro leitor não que posso me considerar mais merecedora do título de leitora do que o outro. Na minha opinião, o que falta a quem acredita ter o poder de julgar a condição dos outros em relação a qualquer assunto é o reconhecimento da própria insignificância e o entendimento de que nenhum de nós tem o direito de rotular alguém. Se eu leio apenas fantasia, ficção, romances, YA ou thrillers, sou o que? Acertou quem disse leitora. Pois não apenas de clássicos a literatura é construída, e, assim como a língua portuguesa e praticamente tudo em nossa sociedade, é uma abordagem mutável, viva e em constante movimento. O que hoje é considerado por alguns como apenas mais um “livro adolescente”, por exemplo, pode ser o clássico de amanhã. Quem sabe? 

“E não é preciso que o balcão esteja rodeado por turistas, que os gringos parem de dois em dois minutos na frente da minha vitrine. Vender guarda-chuvas não é como vender alfajores ou discos de tango. O que os traz aqui é a necessidade, a impaciência da chuva que por vezes parece jamais abandonar Buenos Aires”. 

E mesmo não sendo esta a temática de “Luz em Nevoeiro”, primeiro livro de ficção do autor Iuri Müller, a leitura desta obra, que em essência é tão diferente do que costumo ler, contribuiu para que eu refletisse acerca do assunto que abordei ainda no primeiro parágrafo desta resenha. Composto por doze contos que trazem personagens e discussões distintas, mas ao mesmo tempo com muito em comum, este livro traz ao público a forma narrativa de um jovem autor que, dentre as inspirações nos já consagrados poetas e também em suas próprias experiências (acredito eu), constrói enredos do dia a dia com personagens fáceis de se identificar e de serem identificados, que se relacionam com o cenário de forma tão intrínseca que é praticamente impossível imaginá-los em outro contexto. Um belo exemplo é o conto “Andava a te buscar”, que de forma alguma teria o mesmo tom cativante fora de Montevidéu, por exemplo. Jornalista formado pela UFSM e mestre em Letras – Escrita Criativa pela PUCRS, Iuri tem uma construção narrativa envolvente, e parece ser característico de sua obra não fornecer todos os detalhes, abrindo margem para a imaginação e a poesia inerentes ao próprio leitor. Dentre os assuntos abordados nas entrelinhas, pude identificar em seus contos temas como a pobreza, a falta de perspectivas e os conflitos contra as configurações políticas, apresentados brilhantemente através das vidas de personagens extremamente bem construídos e que costumam tomar atitudes inusitadas e por vezes desconcertantes. No mais, leitura recomendada a todos os leitores, independentemente dos seus gêneros de preferência ou do que alguns julgam ser literatura ou não. 

Sobre a Belas Letras
A editora nasceu em 2008 com o compromisso de aproximar a literatura dos temas da era digital e da cultura pop, com um catálogo enxuto e de qualidade e uma proposta editorial moderna. É rock e pop. É arte, viagem, gastronomia, ciência e humor. É estilo de vida, universo digital, comportamento e inspiração. É uma nova experiência entre os leitores e seus livros. Porque, para nós, ler é se conectar, e se aproximar daquilo que mais amamos.


2 comentários:

  1. Achei a sinopse bem poética. E adorei a proposta do autor (fora essa capa que está maravilhosa, né?).

    Concordo com vc sobre a discussão de que leitor tem que ler XX livros para se nomear um. Eu sou a louca da fantasia e amo o gênero. Leitor é quem lê e ponto final rs..

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    1. Também achei! E o livro todo essa assim, com essa vibe cult poética haha <3 Leitor é quem lê e ponto final! Devíamos criar uma campanha sobre isso haha Um beijo!

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