segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Resenha: Log #1525

“Diário de bordo: Log #1525. Agora sou um só com o sistema central da nave. Acesso todo o corpo da nave só de pensar nele. Realmente o Boris surge como um segundo pensamento e conforme me concentro nele passo a conversar como se fosse outra pessoa, mas estou apenas pensando. Bom, às vezes me pego falando alto e sozinho, mas aí a nave responde, isso dá calafrios”.

Sinopse: “Log #1620 C: Se você está lendo isso é porque provavelmente este maldito cubo de gelo gigante me venceu. Ou pior! Virei motivo para as masturbações mentais dos burocratas da companhia. Merda! O treinamento especial na Amazônia, os anos na “geladeira” nos confins do sistema solar, minha ex-mulher – nada me preparou para isso. Nada! Acordei sob os destroços de um pod de sobrevivência, em um planeta gelado e escuro. Estou com uma puta ressaca de hipersono, um gosto horrível de metal na boca e essa desgraça de implante cibernético na minha cabeça não para de falar! É a mesma coisa que ter uma velha com Alzheimer com acesso garantido aos meus pensamentos. Trabalho fácil, pagamento gordo e um contrato com letras bem miúdas. Claro que eu ia me ferrar, claro! Droga, tudo que eu queria agora era um café...”. 

Título: Log #1525.
Autor: B. Demetrius.
Páginas: 288 páginas.
Editora: Chiado Editora.
ISBN: 978-989-51-9949-5.

 
“Diário de bordo: Log #1527. Já perdi a conta de quanto tempo no espaço. Ah! Graças ao Boris, agora eu sei. Já são 516 dias de missão, a maior parte deles ou em hipersono, ou sozinho nesse monstro de tritanium. Pelo menos agora eu tenho alguém para conversar que realmente entende o que eu estou pensando”. 

Algumas Impressões 

Antes de iniciar este lote de dados, quer dizer, resenha, devo dizer que esta está extremamente atrasada! Conheci o autor B. Demetrius através de um amigo em comum ainda em maio, e logo me interessei por seu trabalho com ficção científica, sendo eu mesma uma grande entusiasta de narrativas espaciais e tramas épicas envolvendo naves repletas de tecnologia, planetas desconhecidos (gelados ou não), e seres extraterrestres. Entrei em contato e ele gentilmente concordou em me ceder um exemplar de “LOG #1525” para que eu pudesse fazer a leitura das aventuras do Major, e agradeço imensamente por isso. Instigante e intrigante, é um sci-fi envolvente, que prende a atenção do leitor ainda nas primeiras páginas por meio de um estilo narrativo diferenciado e um protagonista empático, divertido e cativante. O livro conta a história de Major, um astronauta brasileiro que faz parte de uma missão de exploração espacial a bordo de um grande cargueiro. Juntamente com a tripulação, ele é mantido em hipersono a maior parte do caminho, contudo, algo dá errado, e nosso protagonista se vê preso em um planeta desconhecido, frio e escuro. E o pior, sozinho. Ao sair em busca dos demais tripulantes, ele não obtém sucesso em encontrar nem mesmo suas pegadas. Onde todos estariam? Mesmo atordoado pelo mistério, a surpresa e também o medo, Major terá de responder a esta e a diversas outras perguntas se quiser encontrar uma forma de voltar para casa. 

 
“Diário de bordo: Log #1626. (...) Nota: “Voltando para casa, contatar o departamento de desenvolvimento de processadores e apresentar as análises do Boris. Quem sabe arranjo um emprego com isso. ” Droga, a quem estou enganando? Eu vou é morrer nesse lugar gelado! Merda”. 

Mas, por mais que esteja sozinho, sua solidão não é exatamente completa. Isso porque o astronauta conta com o auxílio de Boris, uma inteligência artificial implantada em seu cérebro por meio de um Nanobot com o objetivo de ajudá-lo em casos de emergência. Com um ritmo fluido e dividido em capítulos curtos, os LOGS da missão registrados por Major, a narrativa em primeira pessoa proporciona uma identificação e envolvimento maiores com o personagem e suas emoções, uma vez que é possível acompanhar o que se passa em seu íntimo: seus medos, inseguranças e, principalmente, seus pensamentos. Além disso, o protagonista é extremamente crível e divertido, o que faz toda a diferença para a compreensão geral. A cada instante, nos vemos torcendo por ele, ansiando para que encontre os tripulantes, resolva todos os mistérios que o rodeiam, complete sua missão e volte para casa. Particularmente, gostei bastante da forma como o autor escolheu contar esta história, no caso, através dos registros, mas pode ser um pouco complicado no começo para alguns leitores se acostumarem com o monólogo constante de Major e as interpretações de seu segundo pensamento, Boris. Mas, se por um lado não sabemos necessariamente o que a inteligência diz, por outro isto se transforma em um convite e tanto para a imaginação do interlocutor. Com uma riqueza de detalhes impressionante e uma interpretação um tanto sarcástica de Major, seguimos com ele ao longo das quase trezentas páginas de “LOG #1525” na missão de encontrar seus companheiros enquanto tenta sobreviver com o pouco que tem e fazer contato com alguém que possa ajudá-lo, desvendando aos poucos a beleza e os perigos de se estar em uma exploração espacial. 

 
“As informações constantes nesse documento são de caráter confidencial (...). Os logs aqui apresentados são de propriedade do programa experimental de implantes cibernéticos avançados da companhia. Comentar sobre seu conteúdo constitui crime, acarreta o cancelamento de todos os contratos e suspensão dos direitos à remuneração”. 

No mais, gostaria de dizer que gostei muito de conhecer este trabalho, pois, muito além de ser uma ótima obra de ficção científica, é de autoria de um brasileiro, parte da nossa rica literatura nacional que muitas vezes é deixada de lado. A aura de mistério, tensão e até mesmo incompreensão que paira sobre a trama impulsiona o leitor a virar as páginas e a querer saber cada vez mais, até que o desfecho seja revelado – e que final! Além disso, as diversas referências a bandas de rock, deuses mitológicos e até mesmo desenhos antigos tornam tudo ainda melhor. Já no que diz respeito à parte gráfica, estou completamente apaixonada pelo meu exemplar, que é parte da edição especial da Reserva do Autor. Com uma jacket cheia de estilo, marcador e cartões personalizados (com artes conceituais) e um mapa incrível que acompanha os passos do Major, é um dos livros nacionais mais bonitos que tenho a honra de ter como parte da minha coleção. Seja você um entusiasta da ficção científica tanto quanto eu, ou apenas alguém que está em busca de uma boa leitura, “LOG #1525” é mais do que recomendado. Mais uma vez, agradeço a você, B. Demetrius, por me proporcionar esta experiência, e peço que me desculpe pela demora em concluir a missão. Fim do lote de dados. 

Sobre o autor

B. Demetrius é formado em Comunicação Social pela PUC Minas. É diretor de arte, ilustrador, redator e escultor – havendo se especializado no design de personagens e monstros. Atualmente, divide seu tempo entre trabalhar como professor e escrever. Apaixonado desde a infância por ciências, videogames, viagens espaciais e rock’n’roll, cresceu amontoando em sua mente tudo o que pôde sobre séries de ficção científica espacial, alienígenas – endoparasitários ou não –, robôs gigantes japoneses, supersoldados anabolizados, computadores com problemas de ego, artes marciais e piadas de mau gosto. Quando criança, morria de medo do Alien (aquele mesmo), que acreditava viver debaixo de sua cama: o que gerava aventuras apavorantes entre suas idas ao banheiro durante a noite. 

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