sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Resenha: Lembra Aquela Vez

“Parece que o procedimento do Leteo não é palhaçada. A primeira vez que vi um cartaz no metrô divulgando o instituto capaz de fazer as pessoas esquecerem as coisas, pensei que se tratasse de uma campanha de marketing para um novo filme de ficção científica. E, quando vi a manchete “Aqui hoje, esquecido amanhã! ” na capa de um jornal, pensei que a matéria falasse de algo sem graça, como a cura para um novo tipo de gripe. Não imaginei que eles estivessem falando sobre memórias”.

Sinopse: “Aaron Soto, um jovem de dezesseis anos, está crescendo no Bronx dos dias atuais, em Nova York, poucos meses depois de tentar o suicídio e de encontrar seu pai morto com a própria navalha de barbear. Enquanto sua mãe confere folhetos do Leteo, um novo e polêmico instituto que realiza cirurgias para apagar memórias dolorosas, Aaron se reaproxima de sua devotada namorada, Genevieve, que o apoiou nos momentos difíceis, e da galera do seu bairro, que não teve a mesma atitude. Então, Aaron conhece Thomas, um garoto do conjunto habitacional vizinho. Os dois se tornam grandes amigos imediatamente, e Aaron se vê compartilhando coisas jamais por ele compartilhadas, nem com Genevieve. Logo fica claro para todos ao seu redor que Aaron está se apaixonando por Thomas, o que é um problema – a relação com Gen, desta vez, é séria – e perigoso: Não é nada fácil ser gay quando você é pobre e mora no Bronx. De repente, quando os antigos amigos de Aaron o agridem para ensinar uma lição (para o seu próprio bem, é claro), ele bate com a cabeça e algo estala... e novas memórias começam a emergir. Parece que Aaron já foi submetido ao procedimento do Leteo. Mas para esquecer o que? ”. 

Título: Lembra Aquela Vez. 
Autor: Adam Silveira. 
Páginas: 336 páginas.
Editora: Rocco Jovens Leitores. 
ISBN: 978-85-7980-280-5.

 
“Tentar cometer você-sabe-o-quê há dois meses não foi apenas um ato egoísta, mas também embaraçoso. Quando você sobrevive, é tratado como uma criança, de quem é preciso segurar a mão ao se atravessar a rua. E o pior é que todos suspeitam que você estava implorando por atenção, ou que foi simplesmente burro demais para fazer o trabalho direito”.


Algumas Impressões 

Os livros nos proporcionam oportunidades únicas, entre elas a possibilidade de conhecer e tentar compreender através da leitura realidades muito distintas da nossa. Lançado originalmente em 2015, “Lembra Aquela Vez”, do autor Adam Silveira, foi finalista na categoria romance juvenil no Prêmio Lambda, o mais tradicional do segmento voltado para a literatura LGBT do mundo, e conta a história de Aaron Soto, um garoto de dezesseis anos que, após passar por uma série de problemas – dentre eles uma tentativa de suicídio –, se vê redescobrindo sua sexualidade. Com um misto de ficção científica e extrema realidade, a trama criada pelo autor levanta uma série de questionamentos sobre amizade, amor, incertezas e auto aceitação, além de evidenciar a violência entre os jovens nos bairros periféricos das cidades norte americanas (como o Bronx) e discutir sobre as doenças psicológicas, como depressão e ansiedade, bem como sobre a intolerância contra os homossexuais. Na trama, Aaron carrega consigo a dor pelo suicídio do pai, além da cicatriz de sua própria tentativa, mas, por receber o apoio da mãe e da namorada, Genevieve, permanece determinado a seguir em frente e a nunca mais atentar contra a própria vida. Contudo, quando Gen viaja para um acampamento, Aaron se aproxima de Thomas, e passa a sentir coisas que o deixam extremamente confuso em relação a si mesmo. E quando a situação se torna insustentável e ele considera recorrer ao LETEO, o instituto que promete apagar memórias indesejadas e lembranças ruins, Aaron vai descobrir que não se pode encontrar a felicidade fugindo de si mesmo, e que, acima de tudo, não é possível apagar quem ele realmente é.

“É como quando você é criança e quer ser astronauta, até se dar conta de que isso é impossível, apesar de todos falarem que nada é impossível, fazendo até questão de citar momentos específicos da história só para fazer você se sentir um idiota. Mas você segue em frente mesmo assim. Você conhece suas capacidades e circunstâncias, então começa a pensar que talvez seja maneiro ser um boxeador, apesar de ser magro demais”.

Esta foi uma das minhas leituras recentes que mais me fez pensar acerca de uma realidade a qual eu não faço parte, mas da qual conheço inúmeras pessoas que, diariamente, precisam lutar para terem seus direitos respeitados, principalmente o de ser quem elas realmente são e o de amar quem bem desejarem. A narrativa sincera e pungente de Adam Silveira, discute, dentre outras coisas, assuntos como bullying, ética e homofobia, e a forma como muitos indivíduos passam boa parte da vida escondendo sua sexualidade por medo de represálias, vindas de uma sociedade extremamente preconceituosa. A partir deste enredo, fiz uma reflexão acerca de pequenas coisas que, muitas das vezes, passam despercebidas para quem não está inserido numa mesma realidade. Um “beijo gay” em uma novela, por exemplo, é mais comentado e repercutido de forma negativa do que uma cena explícita de agressão à mulher. Porque o primeiro caso ofende tanto e o segundo não? Por mais que sejam situações diferentes, ambas estão fundamentadas no preconceito, e na incapacidade de muitos de respeitar o outro. A diferença é que o primeiro é um grito de resistência de uma comunidade que almeja um dia poder viver sem o medo, e o segundo trata-se da representação de uma cena que se repete diariamente em muitas casas, e que tem como objetivo abrir os olhos da população para o quanto a violência contra a mulher se tornou naturalizada (o que pode ser provado pela falta de indignação dos tantos que reclamaram do tal beijo gay). A narrativa de Adam é de uma complexidade e profundidade sem igual, e, através de personagens muito bem construídos, tenta abrir a mente de seus leitores acerca do quanto é difícil nos aceitar acima de sermos aceitos, e entender que este é o primeiro passo para alcançar a tão sonhada felicidade. Leitura mais do que recomendada.

Sobre a Editora Rocco
Há mais de três décadas demonstrando sensibilidade para detectar as tendências do mercado, ousadia na difusão de novas ideias e agilidade de produção, a Rocco se orgulha por ser uma editora sólida e independente, capaz de se reinventar a cada dia para atender aos anseios do público brasileiro. Seus selos são: Rocco, Rocco Jovens Leitores, Rocco Digital, Bicicleta Amarela, Fábrica 231, Fantástica Rocco, Anfiteatro e Rocco Pequenos Leitores.



4 comentários:

  1. Me fez pensar ser uma trama mto boa Le! Confesso que de inicio imaginei ser a pegada de brilho eterno de uma mente sem lembranças, pelo fato da empresa de apagar memorias e tudo mais, mas parece completamente mais profundo agora.
    Me deu vontade de ler... 😍

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    1. Pois é, eu não li o Brilho Eterno, mas vi algumas resenhas, e percebi que muitas pessoas acharam se tratar do mesmo assunto! Mas a profundidade deste livro é incrível, e me fez pensar sobre muitas coisas e por muito tempo! Um beijo :*

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  2. Eu acho que o que há de mais precioso na literatura (e nas artes em geral) é justamente o que você falou. Ela nos faz enxergar e conhecer situações diferentes da nossa, entender o outro. Fiquei com vontade de ler!

    Bjs!
    Evelyn Marques
    New Romantic

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    1. Pois é, essa possibilidade de conhecer e pensar sobre outras realidades, além de viajar para outros mundos e contextos é o que eu mais gosto na literatura. Adoro livros que me tiram da zona de conforto, sabe? Um beijo!

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