segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Clube do Livro #5: Contos de Fadas Originais

Eu não sei se você sabe, mas muito antes de ganharem as versões que conhecemos através dos Estúdios Disney, os contos de fadas infantis eram originalmente muito mais sombrios pelas mãos de autores como Charles Perrault e os irmãos Grimm. Perrault, inclusive, é considerado o precursor dos contos de fadas, uma vez que estabeleceu as bases para este gênero literário e escreveu algumas das histórias mais conhecidas, como “Le Petit Chaperon Rouge” (Chapeuzinho Vermelho), “La Belle au bois dormant” (A Bela Adormecida), “Le Maítre chat ou le Chate botté” (O Gato de Botas) e “Cendrillon ou la petite pantoufle de verre” (Cinderela). Ao contrário dos tradicionais “Era uma vez” e “Foram felizes para sempre”, as tramas traziam crianças abandonadas, membros decepados, assassinatos macabros e até temas como pedofilia, estupro e abuso. A ideia era preparar as crianças para os problemas do mundo, mas a verdade é que os contos originais amedrontavam – e muito! E se você ainda não conhece estas versões, no post de hoje comparei algumas delas com as que crescemos ouvindo e assistindo, repletas de princesas, amor verdadeiro e sapatinhos de cristal. Confira! 

Cinderela

Na história contada pelos irmãos Grimm, uma das irmãs corta os dedos dos pés, e a outra o próprio calcanhar, na tentativa de fazer com que o sapatinho de cristal sirva, mas, o príncipe é avisado de que o sapato está cheio de sangue e as rejeita. Ah, e quando tentam comparecer ao casamento de Cinderela com seu grande amor, as irmãs têm os olhos furados por pássaros! O destino da Madrasta é ainda pior: a mocinha mata a vilã quebrando o pescoço da mulher com a tampa de um baú. Além disso, na versão dos Grimm não existe uma fada madrinha para ajudar Cinderela a ir ao baile, diferentemente da versão Disney, onde a garota é humilhada pela Madrasta e as irmãs malvadas por anos após a morte de seu pai, mas recebe o auxílio da fada para comparecer ao grande baile que iria eleger uma esposa para o príncipe. 

A Bela Adormecida 

Na versão do conto de Giambattista Basile, a princesa Aurora espeta o dedo no fuso de uma roca e cai em sono profundo. O príncipe chega ao local onde ela é mantida dormindo, a estupra e vai embora (!!!). A mocinha então engravida e dá à luz enquanto dorme, e só acorda quando os bebês, famintos, chupam seu dedo e retiram a farpa da carne. Há ainda uma versão mais sombria e macabra, contada por Robert Darnton, onde Aurora acorda com os recém-nascidos comendo o corpo da própria mãe por conta da fome (!!!!). Já na versão Disney, a princesa também é vítima de um feitiço e cai em sono profundo, mas o príncipe Philip, apaixonado por ela, descobre a maldição e lhe dá um beijo de amor verdadeiro. Ela acorda, os dois se apaixonam, e sim, são felizes para sempre. 

A Pequena Sereia

Na versão original do conto, Ariel tem a língua cortada em troca de pernas humanas, e por isso não pode falar. Contudo, as pernas doem terrivelmente, como se a garota andasse sobre cacos de vidro, e caso não consiga o beijo do príncipe, seu destino será a morte. No fim, o príncipe se casa com outra e Ariel volta para o fundo do mar resignada com seu destino. Ela ainda teria uma chance, caso matasse o príncipe e deixasse o sangue dele cair sobre seus pés, mas, incapaz de fazer isso, se joga no mar e acaba se transformando em espuma. Por outro lado, na versão Disney, a sereia se apaixona pelo humano Eric, e o resgata após um terrível acidente. Para ficar ao lado do amado, troca sua voz por um par de pernas, mas precisa conseguir um beijo de amor verdadeiro em três dias, ou voltará a ser sereia. Após a trapaça da vilã Úrsula, a tarefa é dificultada e a mocinha volta a ser sereia, contudo, com a ajuda do pai, torna-se humana e se casa com o príncipe. 

A Bela e a Fera

Em uma das primeiras versões originais, criada por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, Bela possui duas irmãs malvadas e invejosas, como Cinderela. Após conhecer e conquistar o amor da Fera, Bela vai para casa com a promessa de voltar logo, mas as irmãs a prendem durante muito tempo. O objetivo era irritar a Fera, fazendo com que ele se sentisse traído e devorasse a amada quando esta retornasse. Na versão Disney, a Fera é um príncipe castigado por sua arrogância, que só seria liberto do feitiço caso amasse e fosse amado. Depois de dez anos vivendo com a maldição, ele conhece Bela, uma garota que adora ler e que acaba se tornando prisioneira em seu castelo. Apesar de o recusar no início, ela acaba se apaixonando, o que desfaz o feitiço e permite que vivam felizes para sempre. 

Chapeuzinho Vermelho

Na história original de Perrault, o lobo mata a avó da menina, mas não a devora. Ao invés disso, quando Chapeuzinho chega à casa, ele a oferece carne e vinho, que ela come e bebe sem saber se tratar da carne e do sangue da própria avó. Depois, o lobo chama a garota para a cama e pede que ela tire todas as roupas antes de se deitar, e então a devora (assassinato, canibalismo, pedofilia e abuso, tudo numa mesma história). Já na versão Disney, o lobo mau chega à casa da avó antes de Chapeuzinho, devora a proprietária e se disfarça de vovó. Ele quase consegue enganar a garota, mas é impedido pelo caçador, que revela o disfarce e mata o lobo. 

Branca de Neve e os Sete Anões

Na trama original, a Rainha não apenas manda matar a garota como exige que seu coração e também o fígado sejam trazidos de volta. Quando o caçador retorna, ela come os órgãos. Enquanto isso, o príncipe encontra o corpo da jovem e o leva mesmo achando que ela está morta. Quando Branca de Neve não acorda com um beijo, ele deixa o caixão cair, e o pedaço de maça na garganta da moça se desloca e sai da boca – o que faz com que acorde. Ela e o príncipe se casam, convidam a Rainha para a cerimônia e forçam a vilã a usar sapatos incandescentes e dançar até morrer (aquela revenge com um requinte de crueldade). Já na história que conhecemos através das animações, a Rainha fica enfurecida após perder o posto de mulher mais bonita para a menina, e, enciumada, manda matar a garota. Entretanto, o caçador não tem coragem de completar o serviço, e a deixa fugir para a floresta, onde ela encontra a casa dos anões e passa a morar com eles. Quando a Rainha descobre que Branca de Neve está viva, se disfarça de bruxa e a entrega uma maça envenenada, que dorme até ser acordada pelo príncipe. No fim, os anões matam a Rainha. 

Rapunzel

Este é um dos contos mais nonsense no que diz respeito à versão original e a “adaptada para crianças”, uma vez que Rapunzel, presa na torre pela cruel mamãe Gothel, fica grávida logo nos primeiros encontros com o príncipe. A feiticeira descobre ao ver a barriga da prisioneira e corta seus cabelos. E, quando o príncipe se depara com os cabelos cortados da garota, acredita que ela está morta, se joga da janela e fica cego por conta dos espinhos presentes nas plantas do solo. Ele passa então a vagar sem rumo, chorando, e, após dar à luz a gêmeos, Rapunzel cura seu amado com suas lágrimas. Na versão Disney, ela é mantida presa e seus cabelos permitem que tenha contato com o belo príncipe, que roubou sua tiara. A moça recupera o acessório e faz um trato com o príncipe, onde devolveria o objeto a ele caso a ajudasse a fugir da torre para ver as luzes no dia do seu aniversário (what?). 

Frozen

Se você é do clube dos que pensavam que esta era uma ideia totalmente original, saiba que na história original de Hans Christian Andersen, chamada “A Rainha do Gelo”, os trolls são criaturas malvadas, que fazem um espelho que distorce as imagens. Quando ele se quebra, pequenas farpas atravessam os olhos e o coração de Kai, que é levado pela rainha malvada e se esquece da irmã, Gerda. Enquanto a menina procura por seu irmão, uma moita nasce de suas lágrimas, e investiga todos os cadáveres enterrados no chão. Uma vez que nenhum deles pertence a Kai (ou seja, ele está vivo), Gerda busca a ajuda de uma garota ladra, elas encontram Kai, retiram as farpas do garoto, combatem a bruxa e voltam para casa. Já na versão que chegou às telas através de Frozen, Elsa é uma garota que possui o estranho poder de transformar as coisas em gelo, e, quando quase mata sua irmã mais nova, os trolls (que são praticamente curandeiros) criam um feitiço para que Anna não se lembre dos poderes de Elsa. Contudo, anos depois a capacidade da garota se torna pública no dia de sua coroação como rainha, e ela foge. Anna sai em busca da irmã, e conta com a ajuda de um vendedor de gelo e um boneco de neve.

E é isso! Escolhi apenas alguns dos contos mais conhecidos para falar por aqui, mas vale à pena pesquisar sobre os demais, uma vez que praticamente todos eles possuem versões originais mais sombrias e com menos finais felizes do que poderíamos imaginar! Indico especialmente as de “Pinóquio”, onde o personagem de Carlo Collodi é um grande manipulador, “Peter Pan”, na versão original de J. M. Barrie, “Aladin”, onde existem dois e não apenas um gênio da lâmpada, e “O Gato de Botas”, através da visão de Robert Darnton, que aponta que existem três versões do conto em questão. E você, já conhecia os contos de fadas originais ou apenas as versões Disney? Ah, tem algum livro, filme, quadrinho ou série para indicar, ou mesmo uma sugestão para o Fleur? Deixa aqui nos comentários!

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