terça-feira, 31 de outubro de 2017

Resenha: Mindhunter

“Eu sabia como esses caras agiam; já tinha visto mil vezes. Eles sentiam a necessidade de manipular e dominar suas presas. Gostavam de poder decidir se suas vítimas viveriam ou morreriam, ou como morreriam. Eles me manteriam vivo enquanto meu corpo aguentasse, despertando-me sempre que eu estivesse inconsciente ou prestes a morrer, sempre infligindo o máximo possível de dor e sofrimento. Alguns podiam passar dias fazendo isso”. 

Sinopse: “Durante as mais de duas décadas em que atuou no FBI, o agente especial John Douglas tornou-se uma figura lendária. Em uma época em que a expressão serial killer, assassino em série, nem existia, Douglas foi um oficial exemplar na aplicação da lei e na perseguição aos mais conhecidos e sádicos homicidas de nosso tempo. Em sua carreira confrontou, entrevistou e estudou dezenas de condenados, incluindo Charles Manson, Ted Bundy e Ed Gein. Com uma habilidade fantástica em se colocar tanto no lugar da vítima quanto no do criminoso, Douglas analisou cada cena de crime, revivendo as ações de um e de outro, definindo seus perfis e descrevendo seus hábitos, o que o ajudava a prever os próximos passos do assassino. Criador da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, John Douglas conta neste livro o que há na mente doentia dos assassinos em passagens impressionantes que fazem lembrar cenas de produções como CSI, Hannibal e Se7ev. Pioneiro em métodos usados até hoje para traçar os perfis psicológicos dos investigados, o próprio agente inspirou diversos personagens ficcionais, como Jack Crawford, de O Silêncio dos Inocentes, e Jason Gideon e David Rossi, de Criminal Minds. Com a força de um thriller, ainda que terrivelmente verdadeiro, Mindhunter: O primeiro caçador de serial killers americano deu origem à série homônima da Netflix, que conta com a direção de David Fincher (Garota Exemplar e Clube da Luta) e tem no elenco Jonathan Groff, Hot McCallany e Anna Torv”. 

Título: Mindhunter: O primeiro caçador de serial killers americano. 
Autores: John Douglas e Mark Olshaker. 
Páginas: 384 páginas.
Editora: Intrínseca. 
ISBN: 978-85-510-0173-8. 

Coloque-se na posição do caçador. É isso que preciso fazer. Pense em um daqueles documentários sobre a natureza: um leão nas planícies do Serengeti, na África. Ele avista uma enorme manada de antílopes ao redor de um olho-d’água. Mas, de alguma maneira (que conseguimos notar em seus olhos), o leão se concentra em apenas um entre os milhares de animais. Ele é treinado para detectar fraqueza, vulnerabilidade, alguma coisa diferente naquele antílope que o torna uma presa mais fácil em meio à manada. O mesmo ocorre com algumas pessoas”. 


Algumas Impressões 

Assim como “Por trás de seus olhos” (clique para ler a resenha), conheci “Mindhunter” através do encontro de leitores e parceiros da Editora Intrínseca na última Bienal, e logo me interessei pela narrativa. O livro, que chegou às livrarias no fim de setembro e inspirou a série da Netflix de mesmo nome, traz a história real do agente especial John Douglas, que, durante os vinte e cinco anos em que trabalhou na Unidade de Apoio Investigativo do FBI, tornou-se uma figura lendária por seu trabalho na captura de serial killers, tendo forjado até mesmo o termo que hoje identifica os assassinos em série. Em seu trabalho, Douglas pesquisou a fundo a mente dos homens responsáveis pelos crimes mais chocantes e macabros dos últimos tempos, entrevistando nomes famosos, como Charles Manson (condenado à morte por liderar, em 1969, o assassinato de sete pessoas, entre elas a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses), Ted Bundy (um dos mais temíveis assassinos em série dos anos 1970, que estuprava e assassinava mulheres) e Ed Gein (conhecido por vestir a pele das pessoas que matava), e precisou aprender a se colocar tanto no lugar das vítimas quanto de seus algozes para criar um método capaz de definir os diferentes perfis psicológicos dos assassinos e auxiliar a polícia a identificar padrões capazes de capturá-los. 

“Comportamento reflete personalidade. Imaginar-se no lugar dessas pessoas, ou dentro da mente delas, em sempre é uma tarefa fácil, e nunca é agradável. Mas é isso que eu e meus colegas precisamos fazer. Temos que tentar sentir como as coisas acontecem para cada uma delas. Tudo o que vemos em uma cena de crime nos diz algo sobre o sujeito desconhecido que cometeu o crime”. 

Apesar de possuir um quê de thriller psicológico, a história contida nestas páginas traz um fascinante e terrivelmente verdadeiro relato da vida do agente especial John Douglas, criador da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, além de proporcionar uma visão imersiva na mente dos mais perturbados e complexos assassinos em série os quais ele perseguiu em seu trabalho como investigador, iniciado em meados dos 1970 – quando os mais cruéis assassinos dos Estados Unidos passam a ser objetos de estudo do FBI. Na época, nos primórdios do que viria a ser a psicologia forense (amplamente abordada em séries como CSI e Criminal Minds), a agência buscava compreender quais as motivações destes criminosos, quem eram e quais os gatilhos que os levavam a cometer sádicos e surreais assassinatos em série. O que mais me impressionou durante a leitura não foram os casos em si, embora terrivelmente assustadores, mas a proximidade apontada entre os criminosos e as vítimas, e como o culpado poderia se camuflar fazendo-se passar por um outro cidadão comum. Em outras palavras, o quanto a dissimulação destes indivíduos os torna tão frios, calculistas e metódicos em seus assassinatos. Tão isentos de culpa e difíceis de se identificar – e que, sem o método e o talento de Douglas, talvez não fossem identificados. Como instrutor de Ciência Comportamental, John Douglas viajou por todo o país entrevistando assassinos políticos, torturadores seriais e maníacos sexuais, além de fanáticos e canibais, e ministrando cursos às forças policiais para a identificação e captura dos criminosos. 

“Havia algo inerente e profundo no psiquismo de um criminoso que o levava a fazer as coisas de determinada maneira. Mais tarde, quando comecei a estudar a mente e as motivações de assassinos em série, e depois, quando passei a analisar cenas de crimes à procura de pistas comportamentais, sempre procurava por aquele elemento isolado ou o conjunto de elementos que levavam o crime e o criminoso a se destacarem do resto, que representava aquilo que ele era.” 

O agente inclusive serviu de inspiração para vários personagens fictícios ao longo dos anos, como o agente do FBI Jack Crawford, criado pelo escritor Thomas Harris para a série de livros sobre o matador canibal Hannibal Lecter (inspirado em um médico assassino real que o autor conheceu em uma prisão mexicana na década de 960, o “Doutor Salazar”), e os investigadores Jason Gideon e David Rossi, ambos da série de televisão Criminal Minds, produzida pela Mark Gordon Company em parceria com a CBS Television Studios e a ABC Studios. Dos casos que mais me marcaram durante a leitura, destaco a primeira oportunidade de exposição pública do método de rastreamento e captura de serial killers de John, o caso dos assassinatos de cerca de 30 crianças em Atlanta (1979 e 1981), sendo 24 menores de idade. O criminoso, preso em junho de 1981, foi pego uma vez que os policiais seguiram as descrições do perfil traçado por Douglas: um jovem negro, dono de um pastor-alemão, provavelmente ex-policial ou segurança particular. Outros dois casos que ficaram na minha memória foram o do padeiro e caçador amador Robert Hansen (que alvejava prostitutas) e o de Charlie Davis, um homem que trabalhava em meio período como motorista de ambulância. Ele estrangulava mulheres, colocava seus corpos à beira de uma estrada dentro de sua área de atendimento e fazia uma ligação anônima e depois respondia o chamado e buscava o corpo. E, como disse o próprio John, o mais impressionante é que “ninguém sabia, quando ele colocava o corpo sobre a maca, que o assassino estava bem ali, no meio de todos”. Uma leitura mais do que recomendada para fãs do gênero de ficção policial e investigação de casos reais, além dos entusiastas de seriados e filmes de serial killers

“(…) Se quiser compreender um artista, olhe para sua obra. É isso que sempre falo para o meu pessoal. Não há como afirmar que você compreende e aprecia Picasso sem estudar suas pinturas.” 

Sobre a Intrínseca
Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.




6 comentários:

  1. Eu finalizei a série, porém ainda não iniciei a do livro (que já está aqui me esperando). Gostei muito da série e fiquei me perguntando o que era ficção o que era "real". Não vejo a hora de ler o real e conhecer mais dobre o agente.

    Amei essas fotos <3

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    1. Eu fiz o caminho inverso e agora quero começar a série! E olha, comparando o livro com as opiniões que vi da série até agora e com as próprias entrevistas do pessoal que trabalhou nela, eles mantiveram tudo o mais real possível, pois as histórias podem parecer fantasia mas mesmo as piores são reais. E isso assusta demais! Sobre as fotos, eu agradeço as dicas que você dá no seu blog, pois toda vez que vou fotografar um livro eu me lembro delas <3 Um beijo e muito obrigada!

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  2. Comecei a acompanhar a série recentemente e estou muito curiosa com relação ao livro também! Estou gostando do tipo de abordagem e reflexão da adaptação, vou colocar esse livro na minhas wishlist <3 As fotos ficaram sensacionais, transmite bem a atmosfera da história, né?
    Beijos!
    Colorindo Nuvens

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    1. Assim que terminei a leitura também passei a acompanhar a série, e gente, que série. Estou gostando bastante da forma como eles adaptaram os elementos do filme. Muito obrigada <3 Um beijo!

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  3. Let,

    Pensa numa pessoa que está louca por esse livro? Euzinha. Assisti a série e fiquei encantada, porque amo psicologia forense. Esse livro deve ser um complemento e tanto. ♥

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    1. Eu também gosto bastante de psicologia forense, e sou uma grande fã de séries como CSI e Criminal Minds. Além disso, é interessante ver como funciona a mente desses caras, e a abordagem do autor é muito boa porque ele realmente viveu as histórias. Estou assistindo a série e gostando bastante também! Um beijo <3

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