sexta-feira, 14 de julho de 2017

Resenha: Os Filhos de Anansi


“Sabe como é, você pega um livro, procura a dedicatória e descobre que, mais uma vez, o autor o dedicou a outra pessoa, não a você. Mas não desta vez. Porque nunca nos vimos/ nos conhecemos apenas de vista/ somos loucos um pelo outro/ não nos vemos há muito tempo/ temos algum tipo de ligação/ jamais vamos nos conhecer, mas, apesar disso, tenho certeza de que pensaremos com carinho um no outro.... Este livro é para você. Você sabe com o quê, e deve saber por quê”. 

Sinopse: “Charlie Nancy tem uma vida pacata e um emprego entediante em Londres. A pedido da noiva, ele concorda em convidar o pai para seu casamento e fazer disso uma tentativa de reaproximação, já que há vinte anos os dois não se falam. Mas nada sai como o esperado, e agora Charlie será obrigado a mudar completamente de rumo. Sua vida vai ficar mais interessante...e bem mais perigosa. Ao se embrenhar no território da mitologia africana, Neil Gaiman leva o leitor a mergulhar nesta história bem-humorada sobre as relações familiares, profecias, divindades vingativas e aves bem malignas”. 

Título: Os filhos de Anansi. 
Autor: Neil Gaiman. 
Páginas: 328 páginas.
Editora: Intrínseca.
ISBN: 978-85-8057-699-3. 


“Esta história começa assim como a maioria das coisas: com uma canção. Afinal, no princípio existiam as palavras, e elas vinham com uma melodia. Foi assim que o mundo foi feito, foi assim que o vazio se dividiu, que as terras, as estrelas, os sonhos, os pequenos deuses e os animais surgiram no mundo. Eles foram cantados”. 

Algumas Impressões 

Uma das coisas mais interessantes sobre Neil Gaiman é a capacidade que o autor tem de envolver com as mais diversas narrativas. Ao mesmo tempo em que faz com que o leitor questione sua própria existência e tudo o mais que existe, ele apresenta informações brilhantemente colocadas sobre religião, política, organização social e tudo o mais que permeia a sociedade e auxilia na construção subjetiva do indivíduo. Se tem algo nesta vida que nunca faço antes de começar a leitura de um de seus títulos é esperar pouco da obra. Minhas expectativas são sempre altíssimas, e devo dizer que ele nunca me decepciona. Com um estilo narrativo lúdico e um tom bastante natural para narrar os mais diversos acontecimentos – do trivial ao extraordinário -, em “Os Filhos de Anansi” Gaiman mistura uma narrativa contemporânea que se passa entre a Inglaterra e os Estados Unidos com histórias míticas de Anansi, um antigo deus africano cujo ao qual todas as histórias pertencem. Este deus é, do mesmo modo, uma aranha e uma pessoa. E para o protagonista de nossa história, é mais do que isso: é o seu pai. E para quem já leu “Deuses Americanos” (clique para ler a resenha), Anansi é um velho conhecido.


“Fat Charlie pensou que um mundo no qual os passarinhos cantavam pela manhã era um mundo normal, um mundo sensato, um mundo do qual ele não via problemas em fazer parte. Mais tarde, quando os pássaros se tornaram algo a ser temido, Fat Charlie ainda se lembraria daquela manhã como algo bom e puro, mas também como o momento em que tudo havia começado. Antes da loucura. Antes do medo”.

Charles Nancy, ou, como todos o chamam, Fat Charlie (apelido este dado pelo pai), vai se casar. E, após quase duas décadas sem receber notícias do pai, é persuadido por sua noiva a convidá-lo para o casamento, de modo a promover uma reconciliação. Contudo, ao tentar o contato para entregar o convite, Fat Charlie não só descobre que seu pai está morto, como também fica sabendo que possui um irmão, do qual ele não se lembra nem nunca ouviu falar. E para um homem que levava uma vida pacata e tediosa, com um emprego comum e tedioso, vivendo dia após dia uma rotina bem comum e tediosa, os acontecimentos que viriam a seguir não poderiam nunca serem imaginados. Tudo o que ele conhece se transforma no momento em que resolve seguir o conselho de velha amiga e vizinha de seu pai, que o ensina como entrar em contato com o irmão: basta que ele sussurre para uma aranha, e Spider virá. E, inexplicavelmente, ele vem. E vira a vida de Charlie de cabeça para baixo. Guardando temas como fraudes financeiras, o poder e a vergonha do karaokê, velhinhas muito simpáticas e misteriosas, personagens bem construídos e realistas, um cruzeiro para o Caribe, uma origem (ou final) diferente para o mundo, animais que são pessoas e pessoas que são animais, e pássaros mais do que ameaçadores, “Os Filhos de Anansi” traz as mais diversas reviravoltas e reflexões intrínsecas, e faz com que o leitor se mantenha envolvido até a última página. E em um ritmo constante, sem que a narrativa perca nem mesmo por um segundo a leveza e o bom humor, regada a um tom extremamente casual e atual. Com uma edição impecável da Editora Intrínseca e conteúdo extra exclusivo, esta é uma leitura mais do que recomendada para você que, assim como eu, faz da curiosidade um impulso para conhecer mais sobre o mundo e suas infinitas particularidades. E, não é por nada não, mas se eu fosse você leria esta história o quanto antes, afinal, é uma história de Anansi, e se tem uma coisa da qual a aranha gosta, é de ser lembrada.

Sobre a Intrínseca
Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial.



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