sábado, 26 de novembro de 2016

Resenha: O Livro das Coisas Estranhas


“As mãos de Peter tinham parado com a tremedeira. Um pouco de perspectiva lhe tinha sido concedida. Não se tratava de Getsêmani nenhum: ele não estava indo para o Gólgota, estava embarcando em uma grande aventura. Fora escolhido entre milhares para atender à convocação missionária mais importante desde que os Apóstolos tinham se aventurado a conquistar Roma com o poder do amor, e ele ia dar o melhor de si”.

Sinopse: “Peter Leigh é um missionário que atendeu ao chamado mais importante de sua vida. Ex-alcoólatra e ex-drogado, encontrou sua redenção em Jesus e no amor por sua mulher, Bea. A missão é embarcar em uma nave espacial, cruzar galáxias e chegar em Oásis, um planeta distante e desconhecido, para evangelizar alienígenas que anseiam pelos ensinamentos da Bíblia, por ouvir a palavra de Deus. Essa busca será um desafio às crenças de Peter, a sua compreensão dos limites do corpo humano e, acima de tudo, ao seu amor por Bea, que ficou para trás na Terra. O livro das coisas estranhas, transcendendo o rótulo da ficção científica ou de qualquer outro gênero literário, é uma história original ricamente construída sobre aventura, a natureza da fé e dos laços que mantêm unidas duas pessoas que se amam mesmo estando separadas em mundos diferentes. Em Oásis, a promessa de um futuro para Peter, uma alegórica visão do Paraíso. Na Terra, nada vai tão bem, com suas catástrofes de toda ordem relatadas pelas frenéticas cartas da esposa. A Terra, seriamente ameaçada, pode chegar ao fim”. 

Título: O Livro das Coisas Estranhas.
Autor: Michel Faber.
Páginas: 528 páginas.
Editora: Rocco.
ISBN: 978-85-325-3039-4.

 

“Ele estava assustado demais para falar. Aquilo não era alucinação nenhuma. Era o que acontecia com o universo quando você não conseguia mais obrigá-lo à coerência. Cachos de átomos, raios de luz, aglutinando-se em formas efêmeras antes de se transmutar em outra coisa. Seu maior medo, ao deslizar para a escuridão, era nunca mais voltar a enxergar os seres humanos do mesmo jeito”.

Algumas Impressões 

         Dentre os meus gêneros literários favoritos, ficção (principalmente científica) e fantasia estão no topo da lista. As narrativas espaciais, que apresentam seres extraordinários e planetas desconhecidos, costumam me conquistar com surpreendente facilidade logo nas primeiras páginas, e quando a trama envolve questões conflitantes e que levam à reflexão (como ciência e religião, por exemplo), aí é que gosto mesmo. É interessante quando um autor faz com que os leitores reflitam acerca do mundo em que vivem e do que acreditam, uma vez que as coisas em geral são mais do que podemos enxergar. Por este motivo, assim que pus os olhos na sinopse de “O Livro das Coisas Estranhas”, romance do aclamado autor Michel Faber, eu soube que precisava lê-lo o quanto antes. Michel também é autor de títulos como “Sob a Pele” e “Pétala Escarlate”, e “O Livro das Coisas Estranhas” foi muito bem recebido, tanto pelo público quanto pela crítica assim que foi publicado, em 2014 - tanto que entrou para a lista dos 100 livros notáveis do ano do The New York Times. Na trama, que se passa em um futuro próximo, somos apresentados à Peter Leigh, um ex usuário de drogas que encontrou no Cristianismo a razão de sua existência, e que, desde que se converteu, dedica-se a conduzir outras pessoas a este caminho. Agora missionário, ele foi escolhido dentre muitos para uma missão tanto inusitada quanto especial: catequizar a civilização extraterrestre do planeta Oásis, que, aparentemente, está sedenta pelos ensinamentos do Evangelho. Mesmo repleto de dúvidas, Peter está eufórico com a tarefa cheia de novos desafios preparados para ele por Deus, principalmente com o fato de os próprios alienígenas, os Oasianos, terem solicitado que alguém fosse enviado para pregar os ensinamentos da Bíblia (a qual chamam de O Livro das Coisas Estranhas). Mas, ao mesmo tempo, ele se vê em conflito por ter de se separar da esposa, Bea, a qual foi considerada inadequada pela misteriosa organização responsável pela pequena colônia humana no planeta recém descoberto, a USIC, e não pôde acompanhá-lo na missão. Sozinho, ele é transportado para o planeta alienígena através de uma tecnologia conhecida como “Salto”, e, uma vez em Oasis, começa sua jornada evangelística em meio à peculiar raça nativa. Longe de sua mulher Bea, de seu gato Joshua e do mundo onde nasceu e cresceu, ele se vê testado de formas inimagináveis, de seu corpo à sua fé, em um enredo profundo que aborda temas como separação, amor e a natureza da fé religiosa. Longe da Terra, Peter irá descobrir que, maior do que o desafio de converter alienígenas, e enfrentar o abismo emocional que começa a se formar entre ele e a esposa por conta da distância excruciante que os separa. Além disso, por algum motivo não há quase nenhuma informação disponível sobre seu novo “rebanho”, e ele terá que enfrentar por conta própria os mistérios que permeiam o novo planeta.

 

“Peter atravessou a porta de correr, encontrando o ar de Oásis, e, diferentemente do que temia, não morreu instantaneamente, não foi sugado por um vórtex para o vácuo, nem fritou feito uma lasca de gordura na chapa. Em vez disso, ele se viu envolto em uma brisa cálida, úmida, um redemoinho balsâmico que parecia vapor, exceto por não incomodar sua garganta. Saiu andando no escuro, nada a iluminar seu caminho além de uns postes distantes”. 

      Contudo, será que é necessário temer o desconhecido uma vez que os próprios Oasianos ansiavam pelos ensinamentos de Jesus? Há realmente uma complexa e intrincada trama além de seu conhecimento se desenrolando ali? Uma vez adaptado ao clima idílico de Oasis, o pastor começa a entender aos poucos a relação estabelecida entre a equipe da base da USIC e os nativos e também como funciona a comunidade Oasiana, ao mesmo tempo em que se comunica com Bea através de uma tecnologia de comunicação interplanetária chamada “Tubo”. Através das cartas cada vez mais urgentes e até mesmo desesperadas da esposa, ele descobre que a Terra está sofrendo com as mais variadas catástrofes “na terra e nos mares”, o que, de acordo com a Bíblia, anuncia a chegada do apocalipse cristão e a segunda volta de Cristo. Será que a Terra como a conhecemos está mesmo chegando ao fim? Extremamente atormentado pelo tom cada vez mais caótico das cartas da esposa e imerso nas ocupações de sua nova vida, Peter chega ao limite, física e emocionalmente. Há algo que ele possa fazer, a incontáveis quilômetros de distância? Mesmo classificado como uma narrativa de ficção científica, ao fazer a leitura percebi que o livro pode ser abordado principalmente como sendo um romance, uma vez que boa parte da trama gira em torno do relacionamento de Peter e Bea (e também do relacionamento de Peter com Deus). Entretanto, vários dos elementos presentes categorizam-no como ficção, mesmo que o autor não tenha desenvolvido tanto a parte futurística e de exploração interplanetária. É uma aventura espacial com um mundo ricamente desenvolvido, e Oasis e os Oasianos despertam o interesse e a vontade de conhecê-los cada vez mais. Mas a verdade é que tudo isso figura como background para o drama pessoal do casal e a mensagem evangelística intrínseca nesta obra de Michel Faber. É um livro interessante e bem construído, curioso e com um bom ritmo de leitura. Mas ao mesmo tempo em que me cativou e fez com que uma intensa reflexão sobre minhas próprias crenças fosse desencadeada, é uma obra difícil de se indicar. Se você gosta de tramas espaciais mais “clássicas” ou se por algum motivo não simpatiza com as Escrituras (citadas literalmente em diversas passagens), pode encontrar barreiras na leitura de “O Livro das Coisas Estranhas”. Mas se, assim como eu, gosta de uma boa e inusitada história fora dos próprios pré-conceitos, há uma grande chance deste livro te conquistar.



Sobre a Editora Rocco
Há mais de três décadas demonstrando sensibilidade para detectar as tendências do mercado, ousadia na difusão de novas ideias e agilidade de produção, a Rocco se orgulha por ser uma editora sólida e independente, capaz de se reinventar a cada dia para atender aos anseios do público brasileiro. Seus selos são: Rocco, Rocco Jovens Leitores, Rocco Digital, Bicicleta Amarela, Fábrica 231, Fantástica Rocco, Anfiteatro e Rocco Pequenos Leitores.

4 comentários:

  1. É um tanto bobo confessar isso, mas eu me apaixono muito rápido pela diagramação de um livro, esse, por exemplo, já me encantou na primeira foto aiuehauhe ♥ A história parece ser bem interessante, admito que não conhecia o título, mas me agradou.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu sei exatamente como você se sente! Assim que bati os olhos nesse livro, ainda na imagem digital da News eu já quis de imediato, e quando ele chegou com esse reflexo lindo aqui em casa... É bem legal, mas é uma trama complexa! Um beijo :*

      Excluir
  2. Lettícia, ficção científica/fantasia é o gênero com que tenho menos afinidade, mas, ainda assim, isso não me impede de apreciar uma resenha maravilhosa como essa sua e de, por meio desta, interessar-me em talvez dar uma chance à história além da capa (toda vez que vou a Saraiva fico contemplando essa capa maravilhosa hahaha).

    Beijos!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A capa é realmente linda <3 Eu fiquei apaixonada logo que vi na News, e quando ele chegou aqui em casa eu amei mais ainda! Esses dois gêneros são meus favoritos, não tenho como negar, e costumo gostar muito de todas as histórias que leio desses dois. E quando eles se misturam... nossa, eu adoro! Dá uma chance sim, acredito que vai gostar! Um beijo :*

      Excluir