sexta-feira, 6 de maio de 2016

Resenha: Hyde


"Henry Jekyll está morto. Balbucio estas palavras e então me mantenho alerta, como se deixasse cair uma pedra em um poço e aguardasse o baque e o respingo de água... Contudo, dentro de minha cabeça resta o silêncio. Ao meu redor, um coro de sons de comemoração preenche o vazio: o estalido do carvão no fogão, o ranger do gabinete de madeira, como o de uma nau antiga, e, para além das janelas, um ruído baixo e agudo, que lembra filhotes de passarinho. Sento-me na cadeira de Jekyll, ao lado destas três janelas de caixilhos incrustados, com seu sobretudo embolorado jogado em meus ombros como um casaco de viagem. Fim de minha jornada. A transformação nunca foi tão suave" (Hyde). 

        Sinopse: O que acontece quando o vilão se torna o herói? Impedido de sair do gabinete do Dr. Jekyll, Mr. Hyde conta as horas até ser capturado. No entanto, como um último ato ele tem a chance de contar sua breve e fascinante história. Trazido à vida após passar mais de trinta anos adormecido no inconsciente do Dr. Jekyll, Hyde não sabe quando ou por quanto tempo terá o controle do corpo que divide com o médico. Quando dormente, ele observa a vida do doutor de uma perspectiva distante, mas consciente. Porém, conforme o experimento se desenrola, Hyde passa a ter suas próprias experiências, algo próximo à liberdade. Mas a existência mútua é ameaçada. Há um perseguidor misterioso à espreita. Hyde está sendo provocado, e há uma cilada sendo orquestrada. E, quando algumas garotas desaparecem e uma pessoa é assassinada, na bruma da consciência compartilhada, será que Hyde pode ter certeza de que não é o culpado dos crimes? 

Título: Hyde.
Autor: Daniel Levine.
Páginas: 434 páginas.
Editora: Grupo Editorial Record.
ISBN: 978-85-01-10689-6.


"O homem não é realmente apenas um, mas dois. Eu digo dois, porque o estado de meu próprio conhecimento não vai além desse ponto. Outros me sucederão, outros irão me superar neste mesmo tema; e me arrisco a supor que o homem será conhecido no fim como um mero abrigo de entidades múltiplas, incongruentes e independentes" (O Médico e o Monstro). 

Algumas Impressões 

      Datado de 1885, o conto gótico de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro (ou O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde), trás a história – considerada um clássico da literatura - do Doutor Henry Jekyll e seu grande amigo Gabriel Utterson, com foco principal na forma como o primeiro lida com seu alter ego, Edward Hyde. O autor Daniel Levine assumiu uma missão arriscada e um tanto ousada ao retratar a obra, dando vida a uma releitura focada em Hyde, que dá nome ao título publicado em março deste ano pela Record, e que também conta com a versão integral do conto original de Stevenson. Iniciei a leitura pelo conto clássico, uma vez que fazia tempo desde a primeira vez que o li, e, antes de qualquer coisa, tenho que dizer que foi uma sacada genial da editora publicar os livros juntos, uma vez que, sendo a história de Levine uma releitura, esta é cheia de referências do clássico, como memórias e situações passadas pelos personagens. Aliás, as primeiras páginas são quase que por inteiro referências ao conto clássico, com as passagens narradas em primeira pessoa pelo próprio Hyde. A estratégia é eficiente no que diz respeito a ambientar o leitor, e estabelecer uma conexão com a história original, e, através do enredo criado por Daniel Levine, é proporcionada ao leitor a oportunidade de preencher lacunas abertas desde 1885.


         Entretanto, ao longo das páginas, a narrativa se torna um tanto estagnada, com o sociopata Hyde (isto no clássico de Stevenson), sendo retratado como um personagem letárgico e um tanto apático até nas cenas mais complexas. Por mais de uma vez senti como se estivesse faltando alguma coisa, principalmente ação e iniciativa do personagem principal. Veja bem, no conto original Hyde é retratado como um assassino frio e cruel, a essência de sua criação é esta. Já na releitura de Levine, ele é pintado como um (pseudo) herói, que, apesar de não estar no controle nos últimos 36 anos, observa o cotidiano do Doutor de uma perspectiva distante, como se do subconsciente, por mais que não possa se revelar. Este Hyde se defronta com situações existenciais e moralistas a maior parte do tempo, muito diferente do monstro violento e grotesco do livro escrito por Stevenson. Não que a obra tenha me desagradado de todo, mas para quem estava esperando a crueldade de Hyde e sua personalidade conflitante de vilão, o livro de Daniel Levine não satisfaz estes desejos. Não desenvolvi empatia com o personagem em sua nova roupagem, e a leitura tornou-se mais lenta do que de hábito. Para mim, ele é um livro capaz de gerar sentimentos diversos e opostos, uma vez que, para citar uma expressão popular, “ou você o ama, ou o odeia”.


Sobre o Grupo Editorial Record

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2 comentários:

  1. GENTE, quero muito ler esse livro! Conheço por cima a história, mas quanto mais vejo Penny Dreadful mais me dá vontade de ler os livros originais dos personagens! OK, esse não é o original, mas vale mesmo assim. aksjdhaskjdh

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    1. Ele é bom, mas eu gostei mais do original, que também vem neste título. Como eu disse, o mais legal do Hyde é o lado sombrio dele, que não é tão aflorado neste livro. Ele se sai quase como o mocinho entende. Mas é bom KKKKKK Um beijo : *

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