terça-feira, 26 de abril de 2016

O Sentinela da Liberdade: Capitão América


           Como venho falando incansavelmente nos últimos meses, e também na última crônica (ainda não leu? clique aqui), meu trabalho de conclusão de curso é sobre o herói Capitão América, e eu tenho basicamente respirado o assunto ultimamente. Ao mesmo tempo, esta semana estreia o tão esperado filme "Capitão América: Guerra Civil" (28 de abril), e apesar de já ter lido os quadrinhos e conhecer a história, estou muito ansiosa e curiosa para o filme, que trás várias mudanças em relação à trama original, principalmente por dispor apenas dos acontecimentos e personagens dos últimos filmes do Universo Cinematográfico Marvel (para quem conhece a história, a Guerra Civil nos quadrinhos, série publicada entre os anos de 2006 e 2007, envolve uma infinidade de personagens da Marvel Comics). E para completar todo esse hype que eu não estou conseguindo segurar - tanto para o filme quanto para o término da monografia - o grupo Liga Nerd Girls propôs como temas da blogagem coletiva deste mês justamente os meus dois assuntos favoritos no momento atual: Capitão América e Guerra Civil! Uma das ideias era defender seu lado (#teamCap ou #teamIron), e como eu obviamente estou do lado do Capitão, resolvi trazer uma pequena parte (bem pequena mesmo) do meu trabalho de conclusão, onde conto sobre a história do personagem e de sua criação. E aí, você conhece o Sentinela da Liberdade? 

Os artistas Joe Simon e Jack Kirby, criadores do herói. 

       No ano de 1940, os escritores e artistas Joe Simon (1913-2011) e Jack Kirby (1917-1994) procuravam um novo herói para apresentar aos editores da Timely Comics - após o fracasso da série Corvo Vermelho (1940) – quando idealizaram o personagem, que tinha como elemento principal do uniforme - nas cores vermelho, branco e azul - uma estrela no peito, e que carregava nas mãos um escudo, originalmente triangular, mas que já na segunda edição passaria a ser o icônico escudo redondo, hoje marca registrada do personagem. O herói é originalmente uma variação de um personagem da MJL Comics hoje praticamente esquecido no universo dos quadrinhos: o Escudo. Porém, os artistas também utilizaram como inspiração o Superman, da DC Comics, considerado a maior influência em todos os super-heróis criados no início dos anos 1940. Por este motivo, foi inicialmente batizado de Super Americano, mas antes do lançamento da primeira edição, em março de 1941, tornou-se Capitão América.


“Passei a noite inteira rabiscando”, lembrou Simon. “Camisa cota de malha, músculos protuberantes no peito e no braço, roupa colante, luvas e botas com aba dobradas abaixo do joelho. Desenhei uma estrela no peito, faixas que iam do cinto até uma linha sob a estrela, e colori o uniforme de vermelho, branco e azul. Acrescentei um escudo”. Na parte inferior da página, escreveu Super Americano. Depois repensou e mudou o nome para Capitão América (A História Secreta da Marvel, 2013).

            As conotações militares do nome fariam jus ao papel do personagem, que, após sua criação, ganhou imediatamente uma revista homônima publicada pela Timely, principalmente pelo que representava frente ao momento político vivido pelo país. Os editores não queriam um personagem de perfil agressivo, e, por este motivo, deram ao Capitão América uma única arma: o escudo. A ideia principal dos artistas era criar um super-herói que estivesse intrinsecamente ligado ao combate a ameaça nazifascista, e que, além disto, pudesse divulgar os ideais democráticos e também liberais dos Estados Unidos da América. Por mais que na época a propaganda direta tenha se mostrado controversa, uma vez que parte dos americanos ainda era contra ao que o Capitão defendia, o fato do herói se disfarçar como um simples e incompetente recruta do exército gerava certa identificação por parte dos soldados americanos que combatiam a ameaça nazista na vida real. Por este motivo, o Exército Americano passou até mesmo a comprar edições da revista e a distribuir os exemplares entre as tropas. A ideia era que as histórias servissem de incentivo para os combatentes.


            Superando as expectativas, a revista Capitão América n°1 atingiu números de vendas próximos à da tiragem do Superman, chegando a vender um milhão de exemplares, e, de pouco a pouco, conquistou um número espantoso de fãs. A Timely Comics começou a receber uma enxurrada de pedidos para a inscrição no fã-clube do herói, denominado “Sentinelas da Liberdade”, e, aproveitando a deixa, a editora passou a cobrar dez centavos de dólar para a filiação. Os Sentinelas filiados recebiam então um distintivo de latão com o Capitão América estampado. Configurando-se como uma das capas mais icônicas da história do personagem, a edição de estreia exibia o Capitão América desferindo um soco em Adolf Hitler, ditador da Alemanha Nazista, comportamento que, cerca de um ano depois, moldaria a conduta dos demais super-heróis.


“Enquanto Superman, Batman e outros heróis continuavam enfrentando aliens, vilões fantasiados e ladrões de banco, as estrelas mais vivazes, espalhafatosas e raivosas da Timely já puxavam as manguinhas para combater vilões reais da Segunda Guerra Mundial. (...) A guerra na Europa, porém, estava ganhando novos tons: a França havia tombado, e a ameaça de o mando nazista espalhar-se pelo mundo começou a entrar na cabeça dos norte-americanos. O Capitão América estaria focado em uma só missão: derrubar o Terceiro Reich” (A História Secreta da Marvel, 2013).
       
       No decorrer do conflito, o título Capitão América foi o carro-chefe da editora Timely Comics, liderando as vendas. Em 1941, o número de gibis vendidos mensalmente passou de 15 para 25 milhões, e em 1943, a indústria de quadrinhos já rendia cerca de 30 milhões ao ano, e grande percentagem das vendas ia para soldados estrangeiros, nas linhas de conflito. Mas, o fato de estar intrinsecamente ligado à Segunda Guerra Mundial significava que o herói perderia parte de sua relevância ao final do conflito, e em 1945, quando o gênero de super-heróis caiu em declínio, o mesmo aconteceu com o Capitão América. Para evitar que a publicação fosse de fato esquecida, o personagem teve de passar por adaptações, a fim de se adequar aos novos consumidores e aos contextos socioculturais, e a primeira modificação ocorreu entre os anos de 1945 e 1950, quando a equipe criativa da editora reformulou o herói e seu jovem parceiro, Bucky. Agora, a dupla combatia o crime urbano, enfrentando gangsteres e outros vilões que pudessem ameaçar a população. Porém, apesar dos esforços dos editores, a revista Capitão América foi cancelada sem aviso prévio em fevereiro de 1950, privando o herói até mesmo de aparecer na capa de sua então última revista, a edição de número 75.


          No ano de 1954, a agora Atlas Comics (antiga Timely) realizou uma tentativa de restaurar a glória do herói, com o título Captain America: Commie Smasher! (1950) (“Capitão América: Esmagador de Comunistas”), que apresentava o herói como um combatente da “ameaça comunista” sobre os Estados Unidos. As edições publicadas sob este título tinham como foco principal evidenciar que o herói e seu parceiro Bucky não mediam esforços para combater a chamada “ameaça oculta”. Mas as histórias não cativaram o público, apesar de reforçarem o clima de paranoia coletiva anticomunista que se instalava no país, e também endossar o discurso anticomunista do senador Joseph McCarthy. O Macartismo, como ficou conhecida a atitude política radical contra o comunismo propagada através da campanha do senador, acabou por disseminar o medo no país, levando os norte-americanos a acreditarem que um ataque soviético, e de natureza nuclear, era iminente. Também conhecido como “caça às bruxas”, o Macartismo foi um período fortemente marcado pela repressão política e por um estado de paranoia coletiva frente ao suposto avanço comunista sobre os Estados Unidos.

Stan Lee, um dos mais icônicos artistas da Marvel Comics.

       Apenas em março de 1964, na edição número quatro de The Avengers (Marvel Comics) (Os Vingadores), uma série criada pelo escritor Stan Lee e desenhada por Jack Kirby, é que o Capitão América voltaria a fazer sucesso nas histórias em quadrinhos, após passar por uma revitalização. As aventuras dos anos cinquenta foram ignoradas, e os autores estabeleceram uma nova origem para o personagem. A ideia é que Steve Rogers, o alter ego do herói, fora dado como morto no fim da guerra, mas que, na verdade, havia sobrevivido por décadas congelado em um bloco de gelo. A parceria entre Lee e Kirby forneceria a agora Marvel Comics um herói ainda ausente em seu acervo, que se fazia presente em dois mundos, assim como o Superman (DC Comics). Além disso, a perspectiva de homem vivendo fora de sua época caracterizava a já tradicional humanização dos super-heróis Marvel. 



           Suas aparições tornaram-no tão popular que o Capitão América passou a ser publicado na revista Tales of Suspense (1959) (Contos de Suspense), cujo carro-chefe era o personagem Homem de Ferro, o qual acabou tirando da publicação, que, por volta de 1968, passou a se chamar apenas Capitão América. O título, não publicado apenas em um breve hiato nos anos 1990, tornou-se um dos mais duradouros da editora, consagrando o herói como o Sentinela da Liberdade. Ao longo de sua existência, o Capitão América acabou alcançando o patamar onde estão símbolos da cultura norte-americana, como o Tio Sam e os Pais Fundadores, ultrapassando o conceito de simples herói de histórias em quadrinhos e tornando-se ele mesmo um símbolo nacional, uma vez que sua imagem pode ser associada com os mais importantes ideais propagados pelos Estados Unidos da América, como a liberdade e a democracia.

8 comentários:

  1. Lê, já devo ter dito aqui que não tenho afinidade com esse universo, né?! Mas acho muito legal ver pessoas tão envolvidas quanto você (bom, você é a única que eu conheço a dedicar um TCC ao Capitão América). Para quem está "de fora", fica cada vez mais claro quanta história, empenho e paixão há por traz de cada uma dessas histórias e filmes. Acho bem legal :)

    Yellow Ever Shine

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    1. Acho que já disse sim kkkkkkk É difícil mesmo encontra pessoas dispostas a pesquisar sobre quadrinhos, principalmente meninas, por conta do machismo e misoginia da nossa sociedade (infelizmente), mas esse universo esconde problemas de pesquisa maravilhosos, e eu queria muito falar sobre ele. Foi uma luta com professores, para convencê-los de que o tema realmente dava um trabalho de conclusão de curso relevante para a comunicação, mas cá estou eu! Obrigada <3 Um beijo : *

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  2. Aqui é Team Cap, vlw, flw! Adorei o post, ainda que seja só um pedacinho como você falou, eu queria ler mais u-u na verdade eu fiquei pensando, de onde surgiu a ideia de usar o Cap no seu tcc? Quero saber essa história!

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    1. UHUUUL! Team Cap manda! Quando eu terminar minha monografia vou dar um jeito de publicar ela em algum lugar, e ai postar o link aqui pra quem quiser ler. Um monte de gente já me pediu para saber mais sobre o trabalho <3 Bom, a ideia veio primeiro da paixão que tenho pelo personagem, e segundo por perceber que ele poderia ser um tema relevante para a comunicação uma vez que atuou como um instrumento ideológico dos EUA, principalmente durante os períodos de guerra e no 11 de setembro. Ele foi um reforço à propaganda e uma propaganda em si entende. Meu objetivo é responder através de análise de que forma, quais os meios utilizados para que ele se torne este instrumento ideológico do American way of life. <3 Um beijo!

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  3. Que post magnífico, Lê! Que post <3 <3 <3.

    Eu amo o Capitão América, mas não conhecia essa "história por trás da história" e achei incrível essa história do Exército Americano distribuindo as revistas para incentivar os soldados.
    Bom, pra falar a verdade, o post inteiro é fascinante e confesso que fiquei ainda mais ansiosa para ver o seu TCC, HAHA \o/

    Beijooo! #teamCap

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    1. Obrigada <3 <3 <3 Pois é, poucas pessoas realmente conhecem a história por trás, e a forma como as coisas se desenrolaram ao longo das guerras até chegar no 11 de setembro. Awwwnn <3 Sobre meu TCC, vou tentar disponibilizar em algum lugar assim que estiver aprovado (se Deus quiser!) KKKK Um beijo : *

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  4. Team Cap, yay! Fiquei invejando o tema do seu TCC, haha. Achei o post muito interessante, eu comecei a gostar meeesmo só depois de O Soldado Invernal, então é sempre bom ler mais sobre o personagem!

    Beijos!
    Vestindo o Tédio

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    1. Team Cap sempre!!! Eu gosto muito do personagem e passei a me envolver mais por conta do tcc. Foi um choque para as pessoas esse meu tema KKKK Um beijo : *

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