segunda-feira, 13 de julho de 2015

Resenha: Estação Onze

“O que se perdeu na calamidade? Quase tudo, quase todo mundo, mas ainda existe muita beleza.”
        É o fim do mundo como o conhecemos. Em uma noite você está no teatro, assistindo uma montagem da peça Rei Lear e, bem no meio do quarto ato, o famoso ator Arthur Leander tem um ataque cardíaco em pleno palco. Um homem da plateia se levanta e vai a seu socorro, mas era tarde demais. Se isso já não bastasse, uma epidemia de uma terrível gripe – e com o período de incubação mais rápido de que já se teve notícias – varre a face da terra no dia seguinte, deixando poucos sobreviventes. Depois de alguns dias, aqueles que não morreram de gripe – ou de frio, no gelado inverno de Toronto – ficam sem energia elétrica, sem água, sem suprimentos. Ninguém sabe quantos sobreviveram (“Será que mais alguém sobreviveu?”), nem quem são os outros. Os canais de TV saem do ar. Não se tem mais jornais impressos, revistas ou rádios. E onde estaria a internet? 

“Não havia mais internet. Não havia mais redes sociais, não havia mais buscas de significados de sonhos, esperanças nervosas, fotografias de almoços, gritos de socorro, expressão de satisfação, status de relacionamento atualizados com imagens de coração inteiro ou partido, planos para um encontro mais tarde, apelos, queixas, desejos, fotos de bebês com roupa de ursinho no Halloween. Não havia mais como ler e comentar sobre a vida dos outros, logo não havia mais como se sentir menos sozinho. Não havia mais fotos de perfil.”
        Kirsten Raymonde também estava no palco do Elgin Theatre, em Toronto, naquela noite. Hoje, quase duas décadas depois da epidemia, quase não se lembra de como o mundo era quando tinha apenas oito anos. Agora ela é uma atriz da Sinfonia Itinerante, uma pequena trupe de músicos e artistas que viaja pelos assentamentos do mundo pós-calamidade apresentando peças de Shakespeare e números musicais para os aglomerados de sobreviventes. 

Título: Estação Onze (Station Eleven).
Autor: Emily St. John Mandel.
Páginas: 320 páginas.
Editora: Intrínseca.
ISBN: 978-85-8057-707-5.

“Nas tardes de silêncio no apartamento do irmão, Jeevan se pegava pensando em como a cidade é humana, como tudo é humano. Nós reclamamos de como o mundo moderno é impessoal, mas isso é mentira, era o que lhe parecia; nunca tinha sido impessoal, nem de longe. Sempre houve uma sutil e sólida infraestrutura de gente, todos trabalhando à nossa volta, sem serem notados, e, quando as pessoas param de trabalhar, todo o sistema emperra e para.” 
          Você consegue imaginar algo assim? Com capítulos alternados entre os grandiosos – mas um tanto desvalorizados na época – tempos antes da tragédia e a nova realidade em que se vive duas décadas depois, o livro Estação Onze, de Emily St. John Mandel, nos dá a oportunidade de pensar não só na factualidade da realidade em que vivemos, mas também, nos desdobramentos que nos fazem caminhar para o futuro, através da perspectiva única da vida e dos relacionamentos de seis pessoas interligadas pelo destino: Arthur Leander, seu melhor amigo, Clark, Jeevan Chaudhary, Kirsten Raymonde, a primeira esposa de Arthur,Miranda e um autoproclamado “profeta”. E eu ainda diria uma sétima: Dr. Onze. 

“Todos os trailers da Sinfonia Itinerante estão assinalados com esse nome, SINFONIA ITINERANTE grafado em letras brancas dos dois lados, mas o trailer da frente leva dizeres adicionais: Porque sobreviver não é suficiente”.

Algumas Impressões

        Este é o primeiro livro que recebo da parceria com a editora Intrínseca, e é uma das mais novas apostas da editora. Quando chegou em minhas mãos, no dia seis deste mês, a primeira coisa na qual pensei era que se tratava de um romance. Para falar a verdade, por mais que este esteja presente inegavelmente no enredo, a história envereda por outros caminhos, que me levaram a refletir sobre as pequenas coisas presentes no mundo como o conhecemos, mas que, por diversas vezes, não notamos. Por mais que o cenário seja o resultado de uma calamidade que levou consigo 99% da população do mundo, e por mais que você esteja ai pensando que isso não é possível, não é algo tão surreal assim. É uma história principalmente sobre resiliência. Sobre a capacidade que os seres humanos tem se adaptar. Não somente sobreviver, mas criar, encontrar uma forma de continuar mesmo nas adversidades. Como justificam os dizeres de Star Trek: Voyager gravados no primeiro trailer da Sinfonia – e também no antebraço esquerdo de Kirsten -: “Porque sobreviver não é o suficiente”.


Observação: Livro cedido pela editora.


Sobre a Intrínseca

Uma editora jovem, não só na idade – afinal foi fundada em dezembro de 2003 – mas no espírito inovador de optar pela publicação de ficção e não ficção priorizando a qualidade, e não a quantidade de lançamentos. Essa é a marca da Intrínseca, cujo catálogo reúne títulos cuidadosamente selecionados, dotados de uma vocação rara: conjugar valor literário e sucesso comercial. 

6 comentários:

  1. Eu ando bem curiosa para ler esse livro! A história parece ser tão legal, não sei mais curto essas coisas futurísticas, e a resenha só me fez ficar mais curiosa! :)

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    1. Eu também estava! Eu gosto muito de histórias que se passam no futuro, e que também levem à reflexão. Recomendo muito! Um beijo :*

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  2. Gosto muito de livros em que os capítulos alternados contam duas faces da história, e pelo que você falou parece ser ótimo. Eu já tinha visto algo sobre ele em algum lugar, mas acabei esquecendo, agora estou louca para lê-lo.

    Caosologia

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    1. Sim! Os capitulos são alternados entre o antes e o depois da calamidade. Eu não sabia muito sobre ele e a autora, mas amei! Um beijo :*

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  3. Que legal! Gosto muito de histórias que nos fazer refletir sobre a vida, assim. Fiquei super curiosa! Vai pra listinha de leitura. :D

    desapegomental.com

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    1. Eu também,principalmente quando vem com um misto de ficção! Um beijo :*

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